O Acordo do Século revelado por Donald Trump

28 de Janeiro de 2020
Por Henry Galsky Para ir direto ao assunto, alguns dos pontos relevantes depois dos pronunciamentos oficiais do presidente norte-americano, Donald Trump, e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, sobre o Acordo do Século:

A ideia é mesmo a existência de dois estados independentes lado a lado. Havia dúvidas quanto a isso, vale dizer. Para Trump o mapa com as fronteiras sugeridas deixa claro "os sacrifícios de Israel para fazer a paz". Ainda de acordo com o presidente dos EUA, o plano "mais do que dobra a extensão do território palestino. Nenhum palestino será retirado de sua casa". A promessa é de que o território palestino será contíguo, mas sem ameaçar a segurança de Israel. 

De acordo com o projeto, há previsão de que os israelenses retenham 20% da Cisjordânia - território que os judeus chamam de Judeia e Samária. O restante do território será parte do futuro estado palestino. Israel também perderá uma parte do Neguev na região de fronteira entre Gaza e o Egito e ao longo da fronteira entre Israel e o Egito. 

O estado palestino só virá a ser reconhecido e a existir formalmente quatro anos a partir da completa implementação do plano e desde que sejam adotadas as seguintes medidas: a Autoridade Palestina (AP) deverá interromper o pagamento a terroristas e deixar de incitar o terrorismo; e Hamas e Jihad Islâmica devem baixar as armas. Além disso, os EUA exigem que os palestinos - e, no caso específico, a Autoridade Palestina - "não pratiquem corrupção", respeitem os direitos humanos a liberdade de religião e a imprensa livre. Se essas condições forem estabelecidas, os EUA reconhecerão um estado palestino e, a partir de então, irão pôr em prática um grande plano econômico de assistência. De acordo com Donald Trump, caso aceitem a proposta, a promessa é de infusão de 50 bilhões de dólares no novo estado. Ainda segundo Trump, o valor é capaz de diminuir a pobreza dos palestinos pela metade e triplicar o PIB. 

As exigências listadas acima - especialmente as demandas sobre Hamas e Jihad Islâmica - já estabelecem por si só o fracasso do projeto. Liberdade de imprensa, ausência de corrupção e respeito aos direitos humanos são valores nobres sem nenhuma dúvida. Mas é impossível obter este compromisso por parte de grupos como os mencionados acima. 

O plano também reconhece a soberania israelense sobre os principais blocos de assentamento na Cisjordânia. Segundo o presidente norte-americano, Jerusalém permanecerá como capital de Israel, mas a parte oriental da cidade será parte do futuro estado palestino "onde os EUA irão orgulhosamente construir sua embaixada" (ou seja, a embaixada norte-americana no futuro estado palestino). 

Para Trump, o plano é a oportunidade para que "os palestinos encerrem seu ciclo de dependência da caridade (internacional)". 

Como início de reflexão, vale dizer que está claro que havia a necessidade de o presidente norte-americano apresentar seu plano. Tendo como rival permanente o antecessor Barack Obama, Trump não poderia terminar o mandato sem ao menos submeter a público sua visão para o encerramento do conflito. A dez meses das eleições norte-americanas - e a pouco mais de um mês do terceiro pleito em Israel em menos de um ano - era chegada a hora de divulgar seu plano de paz. Há sem nenhuma dúvida pontos interessantes, mas sem a participação dos palestinos nada sairá do papel. 

Mesmo o lado favorável ao governo Netanyahu - a aplicação da lei israelense aos assentamentos na Cisjordânia - pode não acontecer rapidamente. Os EUA já deixaram claro que se opõem a decisões unilaterais. A dúvida agora é como será a reação palestina. Se a simples oposição ao plano será por meio de manifestações limitadas ou se a liderança palestina irá investir num movimento de enfrentamento mais amplo que poderá resultar num novo conflito aberto ou mesmo numa nova intifada.