Sobre a possibilidade de anexação dos assentamentos

05 de Fevereiro de 2020
Por Henry Galsky Um dos caminhos abertos pelo plano de paz divulgado por Donald Trump é a possibilidade de anexação por Israel do Vale do Jordão. Em setembro do ano passado, o primeiro-ministro israelense já havia revelado o mapa de seu próprio projeto de anexação.

Esta é uma das consequências mais imediatas que estão sobre a mesa. É polêmica e pode mudar a realidade no solo. Por isso é importante analisá-la por aqui.

Escrevi sobre o assunto e sobre as particularidades do território justamente quando Netanyahu divulgou seu projeto de aplicação da legislação israelense aos assentamentos da região.

Na ocasião, justamente antes da segunda rodada de eleições, o processo seria iniciado a partir dos assentamentos localizados no Vale do Jordão (a parte mais à direita do território, acima do Mar Morto) sem que nenhum palestino fosse anexado e garantindo aos palestinos liberdade total de movimentação. Mas o discurso só se transformaria em realidade após as eleições e, claro, se ele conseguisse formar um governo, o que não ocorreu nos dois pleitos eleitorais ao longo de 2019.

No início de março, os israelenses irão às urnas novamente. Pela terceira vez em menos de um ano. As pesquisas apontam resultados que seguem o mesmo padrão das duas eleições anteriores. Ou seja, nem Netanyahu, nem Benny Gantz (que obtém mais cadeiras no Knesset do que o primeiro-ministro) conseguem formar coalizão majoritária.

A diferença agora é que Netanyahu tem o plano de paz do governo Trump para sustentar seu discurso. Na verdade, Bibi acompanha a tendência eleitoral. Sabe que o projeto de anexação - repito, desta vez sustentado pelo plano de paz de Trump - pode servir para seduzir o Yisrael Beitenu, o partido da direita laica e nacionalista encabeçado pelo seu ex-aliado Avigdor Liberman. A possibilidade de o partido de Liberman conquistar novamente algo entre cinco e oito cadeiras do parlamento o coloca na posição de destravar este impasse eleitoral.

É provável que Netanyahu esteja com a carta da anexação na manga para finalmente conseguir formar a coalizão de governo.

O plano de Trump também confere a Israel o direito sobre a segurança a oeste do Rio Jordão. Esta é uma demanda antiga porque permitiria aos israelenses estabelecer seu aparato de segurança justamente na fronteira entre a Cisjordânia (o principal território reivindicado pelos palestinos para constituir seu estado independente) e a Jordânia, impedindo, dentre outros, a passagem de qualquer grupo de pessoas da Jordânia (ou do Irã, vale dizer) no território israelense ou mesmo no território de um futuro estado palestino sem a checagem prévia das forças de segurança de Israel. Este é um ponto fundamental para o atual governo em Jerusalém, principalmente diante das exigências de seus possíveis aliados domésticos no Knesset. 

Sob ponto de vista político, este é o tipo de discurso que agrada bastante a direita laica nacionalista de Israel - justamente o grupo a que pertence Avigdor Liberman, a liderança que nem Netanyahu, nem Gantz conseguiram atrair ao longo de 2019 para conseguir destravar o impasse político sobre o qual escrevo por aqui com frequência. 

A política está em toda parte. A um mês das eleições em Israel, é impossível pensar o Acordo do Século divulgado por Donald Trump sem considerar os elementos que apresento neste texto.