A escalada de tensões e as agressões mútuas entre Síria e Turquia

14 de Fevereiro de 2020
Por Henry Galsky Amplamente ignorada pela imprensa brasileira, a crise entre Síria e Turquia é um ponto importante de instabilidade no Oriente Médio e pode tomar proporções ainda maiores em breve. O exército sírio matou cinco soldados da Turquia em Idlib, província no noroeste da Síria sob controle dos grupos de oposição ao governo de Bashar al-Assad. Mas é sempre importante lembrar que a situação - assim como costuma ocorrer na região - não permite adesão fácil ou a atribuição de papéis de inocência e vilania de forma simplória, algo muito comum quando os mais incautos decidem avaliar conflitos do Oriente Médio. 

Faço este comentário porque, como escrevi, Idlib é controlada pela oposição a Bashar al-Assad, o presidente-ditador que usou armamento químico contra a própria população em três ocasiões. Três, vale repetir. Mas quem se instalou  na província de "resistência" a Assad (aspas por razões óbvias para que o termo seja interpretado de uma forma menos banal) é o grupo terrorista Hayat Tahrir al-Sham (HTS), organização que mantém vínculo com a al-Qaeda. Pois é. 

É neste ambiente onde ocorre a escalada de tensões entre Síria e Turquia. O exército sírio feriu cinco e matou outros cinco soldados turcos. Apenas no mês de fevereiro, as forças sírias mataram 12 militares turcos. A Turquia apoia a oposição a Assad principalmente porque teme que na esteira da instabilidade síria os curdos ganhem fôlego e prestígio para realizar seu projeto de estado nacional. 

De fato, os curdos têm sido protagonistas no processo de vitória sobre o Estado Islâmico (EI). Na Síria, as Forças Democráticas da Síria (SDF, em inglês), grupo de oposição a Assad, têm como membros principais as Unidades de Proteção do Povo (YPG, em curdo), exército formado, claro, por curdos. Os EUA incentivaram a criação da SDF e se associaram a ela para lutar contra o EI. Os curdos, o maior grupo étnico do mundo a não ter seu próprio estado, avaliaram que a luta contra o EI neste ambiente instável que passou a existir a partir da Guerra Civil da Síria poderia representar finalmente a oportunidade de realização de seu projeto nacional. 

Os curdos entenderam a situação desta forma. O problema para eles é que a Turquia também fez a mesma avaliação. A atuação internacional turca no Oriente Médio tem como um de seus pilares - talvez o mais importante deles - a permanente vigilância de forma a impedir que os curdos obtenham seu Curdistão independente. 

Depois da morte de seus soldados na Síria, a Turquia prometeu reagir. Deu aos sírios até o final de fevereiro para recuar antes de 12 postos de observação  mantidos pelos turcos em Idlib. No território sírio, portanto. A questão é que isso foi acordado num tratado de 2017 entre Turquia e Síria - e mediado por Rússia e Irã (ambos aliados do presidente-ditador Bashar al-Assad). 

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, declarou que "os sírios irão pagar um preço muito, muito pesado" pelos ataques aos soldados do país. De acordo com o Ministério da Defesa turco, suas forças militares teriam atingido 115 alvos governamentais sírios em resposta. Também teriam "neutralizado" 101 soldados, muito embora o exército sírio não tenha relatado nenhuma baixa. 

Este é um olhar amplo sobre mais um conflito que por aqui merece pouca ou nenhuma cobertura. Na próxima semana, apresentarei mais informações e números hiperbólicos sobre ele.