Silêncio internacional e indignação seletiva: lições a partir da ofensiva em Idlib, na Síria

19 de Fevereiro de 2020
Por Henry Galsky Em meu último texto, analisei o confronto entre Síria e Turquia sob a perspectiva geopolítica. Prometi ir além disso para tratar das questões humanitárias numa nova publicação. Em relação a este ponto especificamente, reafirmo o que costumo dizer: há vidas que, de acordo com certas análises, valem menos do que outras. Os confrontos entre turcos e sírios, e sauditas e membros da milícia houthi, no Iêmen, deixam isso evidente. A solidariedade internacional a partir de causas humanitárias é seletiva. Assim como a indignação. 

O Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários avisa que o número de civis deslocados a partir da ofensiva em Idlib, na Síria, saiu de controle. Na província onde estão concentrados os opositores ao presidente-ditador Bashar al-Assad vivem três milhões de pessoas. Fiz uma observação em meu último texto mostrando parcialmente que grupo forma esta oposição, justamente para evitar maniqueísmos. O fato é que Idlib é o foco da guerra civil síria por inúmeras razões. E a ofensiva na região já provocou a fuga de 900 mil pessoas - 525 mil crianças - desde dezembro de 2019. 

Do total de civis em fuga, a ONU afirma que há registros de ao menos 373 mortos. Ainda de acordo com o Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários, "esta é a maior quantidade de pessoas deslocadas num único período desde o início da guerra civil há nove anos". 

Este grande contingente de civis foge justamente para a Turquia, um dos países diretamente envolvidos no confronto e que já recebeu mais de três milhões de refugiados. Idlib está a apenas 42 quilômetros de distância da fronteira com a Turquia. Os turcos não necessariamente estão interessados numa guerra com a Síria, mas, como expliquei em outros textos, querem impedir que os curdos obtenham qualquer vitória capaz de aproximá-los da realização de seu estado nacional. Os curdos são o maior grupo étnico do mundo a não ter um país próprio.

De acordo com a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), a ofensiva atingiu um número importante de hospitais, destruindo-os por completo ou parcialmente. Num momento de fuga em massa da população, isso é ainda mais grave. 

Para completar, vale lembrar que, como escrevo acima, a Turquia está na Síria para impedir que os curdos obtenham seu estado. A Rússia está na Síria para auxiliar seu aliado histórico, o presidente-ditador Bashar al-Assad, a se manter no cargo. O Irã está na Síria para sustentar Assad e também conseguir estabelecer bases no país para confrontar Israel. No meio disso tudo, estão os civis. 

A ofensiva em Idlib ainda não resultou em manifestações com direito a queima de bandeiras da Turquia, Rússia, Síria ou Irã. Tampouco há movimentos majoritários pedindo boicote a esses países em função dos acontecimentos. A indignação é seletiva.