Em Israel, lei que pretende impedir Netanyahu de liderar novo governo pode mudar os rumos da política

10 de Março de 2020
Por Henry Galsky Conforme havia adiantado em meu texto anterior à terceira rodada eleitoral em Israel, nenhum dos dois blocos em disputa - direita e centro-esquerda - conseguiu obter os 61 assentos necessários para conquistar a maioria simples no Knesset, o parlamento, e, finalmente, acabar com o impasse que travou a vida política do país neste último ano.

Apesar de uma quarta eleição não estar fora das opções que se apresentam, considero improvável que ocorra. O clima no país é de incredulidade diante da incapacidade de solução. Nem a sociedade, nem os membros diretamente interessados e agentes do corpo político admitem a possibilidade de novo pleito eleitoral.

Desta forma, há algumas opções possíveis, como a concretização de um governo de minoria liderado pelo principal opositor de Netanyahu neste momento, Benny Gantz.

Particularmente, acredito que hoje a situação seja mais favorável a Gantz, muito embora, como também sempre escrevo, vale lembrar que Netanyahu é o primeiro-ministro mais longevo da história de Israel. E isso não ocorreu por acaso. Não apenas devido à experiência, mas há uma enorme base eleitoral. Bibi é carismático e tem, de fato, resultados positivos a defender desde que ocupou o cargo em 2009.

Mas, para ser claro, apresento o resultado eleitoral: o bloco de direita, liderado por Netanyahu, obteve 58 cadeiras. O bloco de centro-esquerda, cujo líder natural é hoje Benny Gantz, conquistou 40 cadeiras. Mas essa conta é mais complexa.

Há dois atores que, de maneiras distintas, irão definir os caminhos possíveis: a Lista Unificada, aliança entre quatro partidos árabes, é hoje a terceira principal força política do parlamento que tomará posse no dia 16 de março. A Lista Unificada conquistou 15 assentos no Knesset. O partido da direita laica nacionalista, o Yisrael Beitenu, liderado por Avigdor Liberman, conquistou sete cadeiras. Apesar das muitas diferenças entre essas duas forças políticas, ambos não apoiam Netanyahu.

Ou seja, o bloco de parlamentares eleitos que prometem impedir que Netanyahu continue a ser o primeiro-ministro soma 62. Como tenho escrito ao longo dessa cobertura de mais de um ano, a aliança de partidos árabes não toma parte em coalizões de governo por escolha própria. E, além disso, Liberman jamais seria parte de uma coalizão que incluísse a Lista Unificada.

No entanto, toda esta força política - que, vale sempre reforçar, já corresponde à maioria do parlamento - concorda num aspecto fundamental neste momento: pretende aprovar a lei que impede um membro do Knesset indiciado de liderar o governo.

O julgamento de Benjamin Netanyahu por suborno, fraude e abuso de poder começa em 17 de março, portanto no dia seguinte à posse do parlamento.

Há dúvidas técnicas sobre a possibilidade de a legislação pode ser apresentada antes da posse, mas o fato é que, quando submetida à votação no Knesset, essa lei, se aprovada - e o resultado eleitoral mostra que há em teoria uma maioria de parlamentares disposta a aprová-la - pode mudar o destino de Israel e, certamente, de Netanyahu.

A que se fazer uma observação importante: de acordo com membros do partido Azul e Branco ouvidos pelo jornal Yedioth Ahronoth, a proposta, se aprovada, teria validade apenas para a próxima formação de governo, não esta - o que salvaria Netanyahu. Talvez seja uma medida para permitir um acordo de união nacional entre os dois partidos, muito embora os ataques mútuos entre Bibi e Gantz estejam cada vez mais agressivos. 

Uma das possibilidades é a de formação de um governo de minoria apoiado externamente pela Lista Unificada, a coalizão de partidos árabes, e o Yisrael Beitenu, de Liberman. Mas este é assunto para um próximo texto.