Lições e possibilidades para um mundo pós-pandêmico

19 de Março de 2020
Por Henry Galsky, de Israel O Covid-19 é um fenômeno que já está mudando a dinâmica de vida e trabalho em todo o mundo. Mas, como tem ocorrido em relação a todos os assuntos, o vírus também está se transformando em bandeira política. O Brasil é apenas um dos exemplos. A forma leniente como o presidente brasileiro tratou o tema se relaciona também à maneira como a atual administração em Brasília enxerga as relações internacionais e como pretende agir ideologicamente ao interagir no sistema global.

Possivelmente, esta é uma das principais ameaças ao longo do processo de combate à pandemia. A ideologização das ações dos governos e a criação de inimigos a serem culpados. Esta não é, de nenhuma maneira, uma exclusividade de Bolsonaro. O presidente norte-americano tem agido com assertividade no combate ao Corononavírus nos EUA, mas não tem perdido a oportunidade de buscar, sempre que possível, pôr a pandemia integralmente na conta dos chineses - chegou inclusive a usar o termo "vírus chinês" ao abordar o tema em suas redes sociais.

Há grande circulação de teorias de conspiração. Dentre elas, a que crava a China como agente de produção e disseminação do Coronavírus de forma a obter vantagens econômicas. Há outras teorias também, as mais comuns, que surgem sempre nessas situações, colocando na conta dos judeus, como uma vingança, dentre outros, pela escravidão sofrida no Egito (!). Parece inacreditável, mas vivemos a era da superexposição inclusive a este tipo de absurdo.

A ideia de pôr na conta da China é a teoria que ganha mais força. Não apenas porque o país é uma ditadura de esquerda - um fato -, mas porque é uma superpotência econômica. No caso específico de Donald Trump, seu governo e Beijing travam uma guerra comercial desde 2018, assunto ainda pendente e cuja resolução não é simplória.

O ponto é que temos uma realidade com a qual lidar. A erradicação do vírus tem exigido medidas extremas, especialmente na Europa. Por aqui, também precisaremos fazer esses esforços, em que pesem as graves perdas econômicas que certamente virão. Há muita desinformação também em relação à contabilização dos doentes. Os dados quanto a infectados e mortos não correspondem à realidade.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o percentual de vítimas fatais no mundo é de 3,4%. Por mais que essa estatística indique baixa letalidade, é preciso lembrar que possivelmente o número de casos oficialmente contabilizados é inferior ao número de casos de fato existentes, uma vez que não há como se testar toda a população com os sintomas. O Covid-19 atingiu ao menos 114 países.

Há bons exemplos de cooperação neste momento. Como trato com frequência por aqui sobre o Oriente Médio, vale dizer que médicos israelenses estão ajudando colegas palestinos ao repassar informações a serem usadas no combate ao vírus na Cisjordânia. Da mesma forma, Israel vem distribuindo kits de testes para diagnosticar palestinos doentes e auxiliá-los no tratamento. As distâncias físicas não podem ser comparadas a qualquer situação de fronteira do Brasil, por exemplo. Por mais separados politicamente que estejam, israelenses e palestinos estão juntos nessa, uma vez que, ao vírus, distâncias políticas e ideológicas são irrelevantes. O dado real é que as populações israelense e palestina estão conectadas num território mínimo.

Para além deste olhar de cooperação, a pergunta que fica é que mundo irá emergir depois do fim desta crise. Hoje, a maior parte dos países determinou fechamento de fronteiras. Esta decisão sanitária e emergencial é óbvia e justificada dado o momento de crise e incerteza. Mas quando tudo isso acabar - e em algum momento isso vai acontecer - o vírus poderá justificar a aplicação de restrições que já estão subentendidas em certos setores políticos. Pensem em países como Hungria, Polônia, Brasil e EUA, por exemplo.

Pensem na Itália, o país com maior número de mortos. Matteo Salvini, ex-ministro do Interior e líder da Liga, partido de extrema direita, já havia atacado o governo no final de fevereiro por permitir que um navio de resgate com 276 refugiados africanos a bordo atracasse na Sicília. Isso ocorreu antes de o vírus provocar as milhares de mortes na Itália. Este imaginário certamente vai ser usado nas próximas eleições. Países com partidos fortes de extrema direita podem acabar por conferir grandes votações a essas legendas apoiadas pela memória dos acontecimentos recentes.

Por outro lado, há uma dura lição nesta pandemia, a lógica que o professor e escritor israelense Yuval Noah Harari explica em suas palestras e livros: a cooperação entre países e governos é a única forma para evitar situações como guerras nucleares e, claro, este vírus que estamos todos enfrentando. Num momento em que o conhecimento e a pesquisa são questionados em muitos lugares - inclusive aqui no Brasil - o mundo inteiro aguarda com ansiedade que os cientistas encontrem a vacina.

Talvez, depois que tudo isso acabar, poderemos também valorizar professores, cientistas, pesquisadores, estudiosos como deveriam. Vamos nos lembrar disso depois ou vamos ser a mesma sociedade anterior à pandemia?