Os efeitos da pandemia na política e na sociedade em curto e longo prazos

26 de Março de 2020
Por Henry Galsky Neste exato momento, parece-me haver algum consenso global de que a pandemia que todos estamos enfrentando vai mudar profundamente o modo como vivemos. O combate ao vírus e as terríveis baixas humanas que ocorrem - e que certamente irão se agravar nos próximos dias e meses - vão transformar a humanidade. Este é um ponto que, para além de debates equivocadamente partidários sobre o modo correto de abordagem ao Coronavírus e proteção das populações nacionais, também é consensual. 

Há outros aspectos importantes a serem analisados. Ainda de modo muito inicial, já é possível compreender parte do impacto nas Relações Internacionais. Robert Kaplan, do Eurasiagroup, escreve no portal Bloomberg que a pandemia marca a segunda e terceira fases da Globalização. A primeira fase, iniciada ao fim da Guerra Fria, apresentava e colocava em prática o lado positivo da Globalização: livre comércio, cadeias de fornecedores globais, aumento da classe média, expansão da democracia, comunicação digital e ampla mobilidade. 

Já depois da pandemia, haverá o início da segunda e terceiras fases, de acordo com Robert Kaplan. A visão dele se aproxima ao que escrevi em meu último texto: fechamento de fronteiras sob determinação de governos populistas e nacionalistas que poderão pôr em prática suas agendas antiglobais a partir da experiência que todos teremos muito viva na memória quando tudo isso passar. 

A realidade posterior ao arrefecimento da doença pode apresentar um cenário de terra arrasada em muitos países. Não apenas pelo número de cidadãos mortos - fato que por si só já causará impacto -, mas porque será necessário um olhar diferente sobre muitos dos conceitos que hoje parecem naturais, especialmente nas democracias liberais do Ocidente. E aqui faço uso do termo liberal para me referir à economia e ao modelo de governo.

Talvez a informação e a tecnologia sejam usadas para criar bancos de dados governamentais sobre a saúde de seus próprios cidadãos e de estrangeiros. A autorização para a entrada de visitantes poderá ser regulamentada a partir de informações que vão muito além dos protocolos de emissão de vistos atuais. No interior dos países, possivelmente haverá governos que passarão a ter mais dados sobre as condições de saúde dos cidadãos, e isso será tema de debate. Entre privacidade e segurança sanitária, é possível que as pessoas escolham a segunda opção, especialmente no momento seguinte ao fim da pandemia. Os traumas estarão vivos o bastante para influenciar as próximas eleições. 

Ao mesmo tempo, a ideia de que o mercado é capaz de se regular sozinho pode perder força. Quem hoje seria capaz, no Brasil, de levantar a bandeira de fim do SUS, por exemplo? Simultaneamente a isso, pode haver novas discussões sobre a função dos governos. Tomem como base o papel que o governo norte-americano de Donald Trump está exercendo neste momento, aprovando, conjuntamente com a oposição Democrata, o maior pacote de auxílio financeiro da história moderna. Quem poderá defender o oposto disso? 

Ideias polarizadas de esquerda e direita podem ser substituídas por mecanismos mistos, onde governos mais atuantes tomam medidas sociais mais profundas, mas simultaneamente se fecham à cooperação internacional, aplicando a lógica de desconfiança de estrangeiros sobre a qual comentei acima.

Efeito Corona

O cenário político de Israel está em transformação. No momento da publicação deste texto, o líder da oposição, Benny Gantz, se encaminha para abandonar a chapa de centro Azul e Branco para formar um governo de união nacional com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. É claro que, na medida em que o quadro estiver fechado, irei me aprofundar na análise. Mas o caso israelense é simbólico. O país estava sem governo há mais um ano e, neste período, foram realizados três pleitos nacionais. Nenhum resultado ou formato parecia capaz de impedir a necessidade de uma quarta eleição. O estado de emergência precipitado pelo Coronavírus foi responsável em boa medida por esse aparente encerramento do impasse.