Efeito Corona em Israel pode resultar em governo de união nacional, mas negociações seguem tensas

01 de Abril de 2020
Por Henry Galsky Ainda em processo de costura, é possível que o governo de união nacional de Israel apresente divisão ministerial entre blocos opostos: a direita e os religiosos e a centro-esquerda. Como escrevi, o possível encaminhamento de uma coalizão no país - depois de três processos eleitorais infrutíferos realizados ao longo de um ano - é resultado direto da crise de pandemia. 

É claro que o vírus não é algo positivo, mas no caso israelense ele passou a agente de transformação política, possivelmente precipitando decisões que os dois principais atores já quisessem mesmo tomar: Benjamin Netanyahu não poderia permanecer aliado apenas ao bloco de direita e dos religiosos; Benny Gantz possivelmente já queria se aliar a Netanyahu porque assim chegaria mais perto de ocupar o cargo de primeiro-ministro após setembro de 2021. Ambos não enxergaram alternativa que não fosse ceder em suas posições iniciais porque não conseguiram obter votações expressivas o bastante de modo a resultar no estabelecimento de coalizão majoritária.

Gantz era impedido de tomar a decisão de se juntar a Netanyahu por outra razão óbvia. A aliança Azul e Branco - formada pela associação entre os partidos Chossen Le'Israel, Yesh Atid e Telem - nasceu com o propósito de destronar o primeiro-ministro mais longevo da história do país. O número dois da chapa de Gantz, Yair Lapid, manteve sua posição de não embarcar numa coalizão com Netanyahu. 

Mas aí, na última semana, Gantz iniciou conversas com Netanyahu, assumiu temporariamente a presidência do Knesset, o parlamento, e a aliança entre esses três partidos - Chossen Le'Israel, Yesh Atid e Telem - foi desfeita. Gantz manteve o direito de continuar a usar o nome Azul e Branco. O cenário mudou completamente. Se antes havia perspectiva de que a última rodada eleitoral e o início do julgamento poderiam significar o fim de vitoriosa carreira política de Netanyahu, o efeito Corona emabaralhou as cartas - a favor do atual primeiro-ministro.

Com o fim da chapa conjunta Azul e Branco original - que disputou as três eleições do último ano e conquistou 33 assentos no Knesset nesta última disputa de março - o novo Azul e Branco - a ala que optou por seguir com Benny Gantz - possui 17 cadeiras. A maior parte dos demais está na oposição ao governo em formação. Além de conseguir dividir a principal aliança de oposição ao meio, a reorganização dos partidos também pode dar outras vantagens a Netanyahu. 

O bloco de direita que emergiu das urnas em março obteve 58 cadeiras, portanto apenas três parlamentares a menos do que o necessário para alcançar a maioria simples, o número mágico de 61 assentos sobre o qual sempre escrevo por aqui. Há três outros parlamentares eleitos que originalmente ficariam na oposição ao bloco de direita, mas que optaram por deixar suas alianças para possivelmente se juntar ao governo de coalizão: Zvi Hauser e Yoaz Hendel, do Azul e Branco original, e Orly Levy-Abekasis, do Gesher (que concorreu na chapa junto com o Partido Trabalhista e com o Meretz, legenda ainda mais à esquerda do espectro político). 

Se isso se confirmar e esses três nomes se unirem a Netanyahu, o primeiro-ministro sequer precisará de Gantz para formar o governo. Se acontecer, representará uma enorme mudança de perspectivas e uma vitória inesperada de Netanyahu. 

Mas Gantz ainda tem uma carta importante na manga. Se não obtiver garantias de influência, cargos ou relevância no próximo governo, ele pode buscar aprovar no Knesset a lei que impede um membro indiciado do parlamento de exercer o cargo de primeiro-ministro. O projeto é direcionado especificamente a Netanyahu e, se aprovado, inviabilizaria os planos do líder israelense. Gantz e Netanyahu lutam nos bastidores numa relação de profunda ambiguidade, já que podem tanto formar um governo juntos quanto se atacar politicamente de forma assertiva.