Em tempos de quarentena, o Produtivismo reafirma seus preceitos - parte 1

13 de Abril de 2020
Por Henry Galsky
Não é de hoje que abordo por aqui a teoria do "producerism" - que traduzi como "produtivismo". Esta ideia ganhou corpo, poder e influência principalmente a partir da eleição de Donald Trump, em 2016, mas tem feito a cabeça e dado votos a muitas lideranças de extrema direita ao redor do mundo. 

O "producerism" é um aspecto a ser compreendido porque nos ajuda a entender os caminhos que se seguiram após a ascensão de Donald Trump nos EUA e suas repercussões óbvias também por aqui. No Brasil, o fiel seguidor desta teoria, claro, é o presidente Jair Bolsonaro. E sua militância, que bem possivelmente não conhece a teoria de maneira estruturada, mas que vai se reconhecer a partir de agora:

Nos EUA, as linhas de pensamento desta corrente são bastante objetivas; nacionalismo, racismo, militarismo compõem a mistura ideológica. Do ponto de vista mais prático, estão o desejo de mais cortes de impostos para os ricos, protecionismo comercial, restauração da infraestrutura nacional e melhoria de vida da classe trabalhadora branca. 

Menciono acima a chamada "classe trabalhadora branca" porque o "producerism" tem seus vilões. Imigrantes, negros, o próprio Estado, os políticos tradicionais, Wall Street. Todas as minorias estão conjuntamente implicadas na crise norte-americana. E aqui neste ponto faço uma observação importante: não me refiro a esta crise mundial causada pela pandemia. Mas a uma suposta crise anterior que habitava as mentes e se materializava nas mais diversas teorias de conspiração. A família estava "ameaçada", os valores morais, a própria sociedade. O propósito de Trump e do próprio "producerism" era também a restauração desses valores e da América idealizada. Uma espécie de retorno a uma época de pureza e beleza americanas, ao momento de construção do mito fundador da prosperidade norte-americana. 

A teoria responsabiliza as populações não-brancas e as minorias pela falta de empenho no trabalho. A condenação e a imputação da culpa se estendem também à classe política de maneira ampla. De acordo com o "producerism", os membros produtivos da sociedade estão sob permanente exploração por elementos parasitas presentes tanto na parte de cima quanto na de baixo da estrutura econômica e social. 

Chauncey Devega, na Salon, resume o "producerism" desta forma:

“O produtivismo é a crença de que a sociedade está dividida entre os que ‘fazem’ e os que ‘pegam’. O produtivismo de direita tenta mobilizar os “cidadãos reais” contra os parasitas do ‘mal’ que estão na base da sociedade, como negros, imigrantes, gays e lésbicas, os ‘preguiçosos’ e qualquer grupo subalterno que possa ser identificado como o ‘Outro’”, escreve.

No Brasil, claro, houve a necessidade de fazer adaptações. Não é por acaso que a ascensão meteórica de Jair Bolsonaro incluiu a criminalização de todo o PT. Não é por acaso que ainda há muita gente da militância do presidente a repetir o termo "vagabundo" para se referir ao PT, aos petistas e aos petistas imaginários - que um olhar extremo da militância leal a Bolsonaro classifica como qualquer pessoa de oposição ao presidente, inclusive seus ex-aliados. 

Neste momento em que até cumprir ou não a quarentena se tornou bandeira política, a assertividade do "producerism" ficou ainda mais marcada, com os argumentos da defesa pelo fim do isolamento social reafirmando seus preceitos mais fundamentais. Este é um tema sobre o qual me dedicarei em próximos textos.