Netanyahu e Gantz chegam a acordo sobre governo de coalizão em Israel

20 de Abril de 2020
Por Henry Galsky De forma muito objetiva, o acordo assinado é direto: Netanyahu seguirá como primeiro-ministro por um ano e meio. Neste período, Benny Gantz ocupará o cargo de vice-primeiro-ministro e também ministro da Defesa. Em outubro de 2021, Gantz assumirá o lugar de Netanyahu como primeiro-ministro. 

Benjamin Netanyahu pode ser considerado vitorioso no processo que resultou no compromisso estabelecido com seu principal rival, Benny Gantz, do partido Azul e Branco, para formação do governo de união. Já havia escrito por aqui algumas vezes sobre este caminho. A possibilidade se concretizou em boa medida graças à grande demonstração de habilidade política do primeiro-ministro em perceber que o tempo jogava relativamente a seu favor. 

Ao longo deste enorme período de governo temporário - desde dezembro de 2018 - três processos eleitorais impediram a formação de coalização governamental capaz de aglutinar em torno de um dos dois nomes - Netanyahu ou Gantz - o número mágico de 61 membros do Knesset, a metade simples das cadeiras que compõem o parlamento israelense. 

Se em algum momento o cenário pareceu se encaminhar para dar a Gantz o cargo - como ocorreu na esteira desta terceira rodada eleitoral do último mês de março -, o ex-chefe do Estado Maior do Exército nunca teve maioria segura. A possibilidade que lhe restava era a fragilidade de estabelecer um governo de minoria apoiado de fora pela Lista Unificada, a aliança de partidos árabes que concorreu conjuntamente e se tornou a terceira principal força no knesset com 15 parlamentares eleitos. 

Gantz recebeu do presidente Reuven Rivlin a missão de formar a coalizão. Mas não obteve sucesso. A reviravolta a favor de Netanyahu começou no dia 29 de março, quando o Azul e Branco (lista formada pelo partido Resiliência de Israel e pela união de Yesh Atid e Telem) se dividiu em quatro partes: Resiliência de Israel, de Gantz, Yesh Atid e Telem - que permaneceu unida - e Derech Eretz, partido formado por dois parlamentares eleitos também pelo Azul e Branco. A força do partido e de suas 33 cadeiras obtidas nas eleições de 2 de março estava desfeita. 

Gantz ficou com o nome da legenda, Azul e Branco, e com os dois parlamentares do Derech Eretz. No total, não tinha mais como lutar com o poder de 33 assentos, mas apenas 17. Restava a Netanyahu apenas esperar pelos acontecimentos. A pandemia pode ser considerado um fator relevante no processo; com a política de restrição de isolamento social bastante apertada  e aparições diárias na TV, o primeiro-ministro reforçou ainda mais sua posição de liderança diante dos israelenses. 

Enquanto Gantz e Netanyahu se culpavam mutuamente pelo fracasso de negociações para a formação de um governo de emergência, a popularidade do líder mais longevo do país só crescia. Pesquisa do Jerusalem Post mostrou que numa eventual - e ainda mais catastrófica - quarta rodada eleitoral, o Likud sozinho chegaria a 42 cadeiras (cinco a mais do que as obtidas na terceira eleição) e o bloco de direita, a 64. Netanyahu possivelmente conquistaria o direito de se manter no cargo mais uma vez.

O acordo assinado nesta segunda-feira reflete momentos distintos. Provavelmente, Gantz fez a conta. Principalmente porque o cenário para ele piorou bastante. Ele já não contaria mais com os votos destinados ao Azul e Branco original. Chegaria enfraquecido pelo desgaste de todo o processo e pela insatisfação de eleitores que compreenderam que o objetivo do Azul e Branco era impedir que Netanyahu permanecesse no cargo, não aliar-se ao primeiro-ministro. Por sinal, este era o aspecto mais notório do Azul e Branco, a unificação das forças de centro opostas a Benjamin Netanyahu. 

No entanto, é sempre bom lembrar que Benjamin Netanyahu está no cargo sucessivamente desde 2009. Se de fato o acordo for cumprido, Benny Gantz terá sido o primeiro desafiador em todo este tempo a conseguir ocupar a cadeira mais concorrida do país. Mesmo que isso venha a acontecer apenas em outubro de 2021.