Em tempos de quarentena, o Produtivismo reafirma seus preceitos - parte 2

28 de Abril de 2020
Por Henry Galsky Ainda sobre o "producerism", algumas considerações adicionais a partir de extratos da manifestação do movimento. Como demonstração de tudo o que venho escrevendo sobre a ideologia, um trecho do discurso de posse do presidente norte-americano, Donald Trump, proferido em janeiro de 2017:

“Por muito tempo, um grupo pequeno na capital da nação tem colhido as recompensas do governo enquanto o povo tem suportado o custo. Washington floresceu – mas o povo não compartilhou desta riqueza (...). 

“Estamos transferindo poder de Washington e devolvendo-o a vocês, o povo americano (...). O dia 20 de janeiro de 2017 (dia de posse de Trump) será lembrado como o dia em que o povo se tornou soberano desta nação novamente. Os homens e mulheres esquecidos não serão mais esquecidos (...) Esta carnificina americana termina aqui e agora”. 

Como observação rápida, quando Trump faz menção a "homens e mulheres esquecidos" ele se refere à "maioria silenciosa" da foto que ilustra este texto. 

Há alinhamento evidente entre o producerism e o nacionalismo. Há um alinhamento inegável entre Trump e os movimentos nacionalistas contemporâneos. E há, no final das contas, um processo de retroalimentação em curso entre a retórica do producerism americano e os novos e velhos nacionalismos. 

Como venho escrevendo, há um projeto bastante bem sucedido de comunicação entre os diversos movimentos nacionalistas ao redor do mundo. Esses movimentos percebem-se como os defensores dos verdadeiros cidadãos, os que estão "pressionados" pelos "parasitas" de baixo e os "parasitas de cima", sem querer me repetir. Caso queiram um olhar mais profundo sobre a teoria do "producerism", sugiro a leitura de meus textos anteriores que abordam o tema, inclusive o publicado há duas semanas. 

Está claro que há uma enorme dependência entre os novos movimentos nacionalistas globais e suas lideranças e também entre esses movimentos e o processo de estigmatização, inclusive com engajamento profundo em fake news e toda a sorte de teorias de conspiração. E aí cabe de tudo, como a experiência empírica e potencializada pelas redes sociais permite observar. Negros, gays, judeus, imigrantes estão permanentemente no alvo do "producerism". De certa forma, o movimento pode ser definido como a eterna busca por bodes expiatórios. 

O problema para o "producerism" - no caso, um anteparo entre as teorias consipiratórias fundadoras e as que estão por vir - é que lideranças que em maior ou menor grau se identificam com suas diretrizes chegaram ao poder em países importantes. Viktor Orbán, na Hungria, Donald Trump, nos EUA, Jair Bolsonaro, no Brasil, Boris Johnson, no Reino Unido, e outros precisam entregar resultados. Se a ideia era refundar seus países e sociedade, se a ideia era restaurar períodos de grande prosperidade, a vitória eleitoral impõe desafios práticos. 

No entanto, o eventual fracasso de seus mandatos não esvaziará discursos. Pelo contrário. Basta criar a narrativa certa capaz de convencer a base militante de forma a justificar impossibilidades, incompetências e incapacidades por meio de teorias conspiratórias atualizadas. Daí as chamadas fake news serem tão importantes neste processo. 

Ao eleger a imprensa tradicional e profissional como inimiga, o céu é o limite. A ideia de criar notícias e até veículos próprios que contam a sua versão da história - mesmo que sem qualquer comprovação ou credibilidade - passa a ser fundamental na construção da narrativa própria da extrema direita. Seus militantes passam a considerar este processo como vanguardista diante de grupos de comunicação tradicionais que "rejeitam" o novo movimento político e social.