​Suprema Corte de Israel autoriza coalizão entre Netanyahu e Gantz

07 de Maio de 2020
Por Henry Galsky O acordo de coalizão que pode finalmente acabar com o duradouro impasse político em Israel foi autorizado pela Suprema Corte. O escrutínio sobre o texto que vai evitar a necessidade de os israelenses irem às urnas pela quarta vez no período de um ano teve como foco o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Investigado por corrupção, fraude e abuso de poder, o mais longevo líder do país corria o risco inclusive de não ser autorizado a formar o governo.  

Agora, as negociações  partidárias prosseguem. Durante o período inicial do governo a expectativa é que 32 ministros tomem posse. Posteriormente ao prazo de emergência devido à pandemia de coronavírus, o número de ministérios deve chegar a 36, estabelecendo, assim, o maior governo da história do país. 

No meio disso tudo, o ex-aliado Naftali Bennett, atual ministro da Defesa e ex-ministro da Educação, está interessado em buscar alguma posição. 

O caso de Bennett é bastante interessante. Sua carreira política ganhou força na sequência da Segunda Guerra do Líbano, em 2006, quando a função de sua companhia no combate era encontrar e destruir os lançadores de mísseis do Hezbollah, grupo terrorista xiita. Foi durante a guerra que Bennett pôde verificar de perto que a milícia libanesa estava muito preparada para os enfrentamentos, enquanto as forças israelenses - segundo Bennett - aplicavam estratégias erráticas. 

A história do atual ministro da Defesa é curiosa. Seis meses antes do conflito, ele se tornou milionário ao vender sua empresa de software antifraudes, Cyota, por 145 milhões de dólares. Foi a experiência em território libanês que o fez perceber a necessidade de se engajar na política. Desta maneira, depois que a guerra terminou, ele conseguiu um trabalho como chefe de gabinete do então líder de oposição Benjamin Netanyahu. 

Na época, Netanyahu - e também Bennett - era crítico ao governo do então primeiro-ministro Ehud Olmert, que chegou a propor um plano de paz aos palestinos segundo o qual Israel se retiraria de forma unilateral da maior parte da Cisjordânia. O projeto de Olmert, chamado de "Plano de Consolidação", nunca chegou a receber qualquer resposta oficial por parte do governo palestino.  

Bennett, que é favorável aos assentamentos judaicos na Judeia e na Samária (termo usado pelos judeus para se referir aos territórios da margem ocidental ao Rio Jordão), mostrou carisma e grande capacidade de comunicação a ponto de chegar a ser cotado para suceder Netanyahu - com o qual mantém relação ambígua. Já foi admirador, aliado, depois adversário e agora, na prática, o primeiro-ministro o mantém próximo como alguém a ser vigiado. 

Depois que o ex-ministro da Defesa e ex-aliado Avigdor Liberman deixou a coalizão de Bibi, Netanyahu acumulou a pasta da Defesa. Bennett foi nomeado a contragosto. Netanyahu admitiu que só deu o cargo a Bennett por razões políticas relativas à manutenção da coalizão. Isso em novembro de 2019, quando Bennett finalmente acabou por se tornar ministro da Defesa, posição ambicionada por ele há muito tempo. 

Mas a situação do ministro é tensa. A parceria do Likud de Netanyahu com o Azul e Branco de Benny Gantz forçou o primeiro-ministro a fazer concessões importantes. A aliança de direita Yamina da qual Bennett é uma das mais importantes figuras recebeu apenas seis cadeiras nas últimas eleições. Considerando-se apenas os partidos - não coalizões -, o Yemina é somente a oitava bancada em número de parlamentares eleitos numa amostra de 12 partidos que conseguiram representação no Knesset, o parlamento. É pouco para alguém que, como escrevi, chegou a ser cotado para ocupar o cargo de primeiro-ministro. 

Bennett deixou claro, no entanto, que busca ainda um lugar no próximo governo. Com o Ministério da Saúde vago, ele já demonstrou interesse em assumir a pasta. Para isso, procura ressaltar o papel que as Forças de Defesa de Israel (FDI) têm exercido durante essa crise. 

Naftali Bennett ainda é um nome forte na política israelense. A tentativa de seu ex-aliado Benjamin Netanyahu de procurar formar uma coalizão em que a participação do Yemina não seja fundamental pode ser entendida, de certa maneira, como movimentação estratégica que teria como um dos resultados o enfraquecimento de Bennett - nome que pode ser considerado um adversário importante internamente no bloco da direita.