Um olhar sobre o recuo do Irã; e a ascensão de uma nova coalizão em Israel

13 de Maio de 2020
Por Henry Galsky Há uma série de suposições acerca do declínio da atuação iraniana na Síria, onde oficiais e milícias terroristas aliadas ao regime de Teerã se encontram desde 2011. O foco do projeto iraniano é o estabelecimento de presença contínua conectando o país ao mar Mediterrâneo. O projeto inclui também o cerco a Israel em duas frentes: uma ao norte, no lado sírio das Colinas de Golan, e outra ao sul, por meio da Jihad Islâmica Palestina (PIJ) que confronta internamente o domínio do Hamas em Gaza. 

Nesses dias, fontes do Ministério da Defesa de Israel, a parte mais interessada em coibir o sucesso de Teerã nesta empreitada, têm declarado a diferentes veículos de imprensa, de forma anônima, que estão percebendo reduções significativas nas movimentações do Irã na Síria. Isso se traduziria, de acordo com essas fontes, na interrupção do contrabando de armamento aos sírios e na diminuição significativa nos voos de transporte deste tipo de carregamento do Irã à Síria. 

De acordo com o jornalista Ben Caspit, do Al-Monitor, o prestígio iraniano junto a seu principal aliado de peso, a Rússia, estaria sob ameaça. Os ataques aéreos de Israel contra a infraestrutura do Irã criada na Síria - ou contra bases sírias onde pessoal iraniano trabalha no desenvolvimento de armamento contra Israel - têm mudado a percepção do presidente Vladimir Putin, cujas baterias antiaéreas em posse das forças militares sírias acabam alvejadas pela Força Aérea de Israel. 

Todo este quadro resulta, portanto, em análise obviamente positiva a Israel, alvo primordial do projeto regional do Irã. Mas a situação não termina aqui. 

Em meu texto mais recente, escrevi sobre a formação do novo governo israelense e contei a história de seu ministro de Defesa, Naftali Bennet (que deixa o cargo a partir do estabelecimento da nova coalizão). 

Como expliquei, Bennett é o nome forte do partido de direita Yamina, chegou mesmo a ser cotado para substituir Netanyahu e seu carisma e capacidade de comunicação são pontos que o transformaram numa estrela da base política nacionalista e religiosa (não me refiro aos ortodoxos, importante fazer esta distinção). 

Mas depois de certo tempo de estabilidade das coalizões de direita, onde Bennett costumava estar presente, o resultado eleitoral mais recente e a inserção da turma mais ao centro de Benny Gantz transformaram as certezas. Especialmente dos seis parlamentares do Yamina, o partido de Bennett - ele inclusive é o líder dessa aliança. 

O ministro de Defesa não faz parte do quadro de ministros deste novo governo. Tanto que Bennett buscou até pleitear a pasta de Saúde, que estava vaga, ressaltando o trabalho das forças militares durante a contenção da pandemia em Israel. O Estado Judeu, como se sabe, apresenta um dos resultados mais eficientes em todo o mundo, com cerca de 260 mortos entre seus nove milhões de cidadãos. O país inclusive já caminha no processo de reabertura da economia e das demais áreas da sociedade. 

Portanto, pode ser mesmo que as atividades iranianas na Síria estejam em decadência, até porque a situação econômica e social no Irã está das piores da região e de todo o mundo. O país não conseguiu conter a crise pandêmica e está submetido a sanções econômicas por parte dos EUA. É provável também que a atuação israelense e a capacidade militar e de inteligência do país estejam conseguindo conter o projeto do Irã. Mas não seria despropositado relacionar essas novas informações à situação política interna em Israel, em especial neste momento delicado a Naftali Bennett.