Os dados econômicos brasileiros e o que será do país depois da pandemia

19 de Maio de 2020
Por Henry Galsky Economia integrada e globalização trouxeram grandes benefícios à humanidade. Não vou listá-los por aqui, claro, mas todo mundo conhece as facilidades que a integração mundial trouxe à vida moderna. Se nos anos 1990 a luta contra a globalização era uma bandeira de certos setores políticos, a verdade é que esta disputa já foi superada há tempos. O processo era mesmo irrefreável. As vozes dissonantes desapareceram diante da realidade aparentemente incontestável. 

A pandemia atual colocou em xeque as certezas. A globalização permanece como fato. Mas não há clareza quanto ao momento posterior. Como escrevi por aqui logo no início, as perspectivas de governos ainda mais nacionalistas e fronteiras mais fechadas são reais. Lideranças de extrema direita já estavam em ascensão anteriormente em países importantes. EUA, Hungria, Polônia, Brasil são exemplos claros. 

A crise atual apresenta enormes desafios que os países conjuntamente precisam enfrentar. Há sempre alguns caminhos a seguir. Os países podem escolher lidar de forma cooperada com esses desafios ou enfrentá-los isoladamente. Talvez não haja uma resposta única neste aspecto. Talvez algumas batalhas ocorram por meio de grupos de estados. Outras questões serão respondidas isoladamente. 

O caso do Brasil é relevante. Com notória subnotificação de casos - por ser um dos países que menos testa a população -, o país ainda assiste ao crescimento da curva de mortos (mesmo com números oficiais bem abaixo da realidade) e está se tornando exemplo internacional de incompetência na gestão da crise. O mesmo vale para a Bélgica. A capacidade - ou, neste caso, incapacidade - de lidar com este momento é democrática neste aspecto e certamente reflete as escolhas das lideranças atuais. Os países vizinhos ao Brasil levaram a situação mais a sério. Por isso o Brasil é hoje um exemplo negativo internacional, mas que não simboliza as escolhas sul-americanas. 

Os números da crise instalada são pouco animadores. Neste texto, opto por apresentar em primeiro lugar a situação brasileira durante a mais profunda recessão da história do país. 

O desemprego atinge 20% da População Economicamente Ativa (PEA). Antes da pandemia, a previsão do Ministério da Economia era de crescimento ridículo para o ano de 2020: 0,002% do PIB. Antes da pandemia, a cotação do dólar já havia alcançado R$ 5,00. É bom deixar claro este cenário de forma a impedir a construção da narrativa mentirosa que já vem ganhando força; não, o Brasil não estava "decolando". 

A crise mundial que se seguiu apenas expôs as deficiências estruturais. Para um país como o Brasil, a exponencialidade é marca permanente, especialmente em momentos como o atual. Quarenta por cento dos trabalhadores brasileiros estão na informalidade. Em estados como Pará e Maranhão, este índice passa de 60%. Na população jovem - com faixa etária entre 18 e 24 anos -, o desemprego chegou a 27,1% no primeiro trimestre. No Nordeste, a estimativa do IBGE é de que este dado deve alcançar 34,1%. 

Ao mesmo tempo, a projeção de "crescimento" econômico foi revisada. Segundo o próprio Ministério da Economia, haverá queda de 4,7%. Mas fora do governo, as previsões são de queda de 5% ou mais. 

Pensando na realidade de momento do Brasil, todo este cenário será organizado pelo governo de forma a apresentar a narrativa única, estabelecendo a pandemia e o isolamento social como vilões solitários culpados pelo fracasso da administração atual. O governo certamente vai jogar no colo das lideranças estaduais a responsabilidade pela crise econômica - claro, como consequência da decisão de manter o isolamento social. 

O Brasil posterior à pandemia - e não sabemos quando isso vai acontecer - será ainda mais caótico, com o Planalto procurando encontrar culpados, seguindo a lógica do Producerism sobre o qual costumo escrever por aqui. O nacionalismo tacanho e a construção das mais estapafúrdias teorias de conspiração vão ser aplicados como resposta a todos os questionamentos. 

Mesmo que ainda sejam convenientes o bastante de forma a manter a fidelidade cega de 30% dos brasileiros, esses métodos não serão capazes de solucionar os muitos problemas reais que ainda estarão diante de todos nós.