Presidente palestino encerra cooperação de segurança com Israel

22 de Maio de 2020
Por Henry Galsky, de Israel Dessa vez, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, parece ter transformado suas ações em realidade ao determinar o fim da cooperação das forças de segurança palestinas com Israel. Mais ainda, determinou que os palestinos não estão mais comprometidos aos acordos firmados com Israel e EUA. 

Talvez nem todo mundo saiba, mas a coordenação e a troca de informações entre israelenses e palestinos na Cisjordânia são responsáveis pela manutenção da relativa calma no território e também em Israel. Apesar de discursos políticos e de ameaças entre gabinetes e suas respectivas lideranças, o intercâmbio e o compartilhamentos funcionavam até hoje como parte do estabelecimento das relações reais entre israelenses e palestinos. Como sempre escrevo por aqui, os maniqueísmos e simplificações não dão conta do que acontece no dia a dia. 

Agora, com a decisão de Abbas, ninguém sabe ao certo o que pode acontecer. O que se sabe, de fato, é que as perspectivas não são boas. 

O presidente palestino tomou esta decisão por considerar que o atual governo israelense pode levar adiante o projeto de anexação de 30% da Cisjordânia, território onde todos os planos de paz até agora previam o estabelecimento de um estado palestino. Eu disse até agora porque o plano apresentado pelo atual presidente norte-americano abriu um caminho diferente. 

Umas das possibilidades do chamado Acordo do Século, divulgado por Donald Trump em janeiro, previa a retenção por parte dos israelenses de 20% da Cisjordânia - território que os judeus chamam de Judeia e Samária. O restante do território seria parte do futuro estado palestino. Israel também perderia uma parte do Neguev na região de fronteira entre Gaza e o Egito e ao longo da fronteira entre Israel e o Egito.

Apesar de reconhecer a soberania de Israel sobre os principais blocos de assentamento, os EUA deixaram claro, na ocasião de divulgação do plano, que se opunham a gestos unilaterais. Mas agora, com a formação do novo governo israelense, a pressão dos colonos na Cisjordânia é grande. Por outro lado, a atual coalizão israelense representa uma aproximação ao centro político. 

Como elemento importante nesta análise, é importante dizer que a aliança da direita nacionalista Yamina - liderada pelo ex-ministro de Defesa Naftali Bennett, entusiasta dos assentamentos e abertamente contrário ao estabelecimento de um estado palestino - está fora deste novo governo. No lugar de Bennett, é justamente Benny Gantz, figura ao centro do espectro político e com visão mais pragmática, que ocupa o cargo. Gantz acumula as funções de ministro de Defesa e vice-primeiro-ministro. 

Aliás, o Azul e Branco, ex-partido de oposição a Netanyahyu - que se separou de dois partidos da aliança original para se juntar à coalizão. É complicado mesmo, eu sei -, ocupa pastas importantes deste governo: além de Gantz na Defesa (e que deve ser o primeiro-ministro daqui a 18 meses, como prevê o acordo que encerrou o impasse político em Israel), o ex-secretário-geral do sindicato dos trabalhadores Avi Nissenkorn (Justiça), Gabi Ashkenazi (Relações Exteriores) e o trabalhista Amir Peretz (Indústria e Economia). Definitivamente, este não é um governo de perfil tradicional de direita. Tanto que o Yamina, a favor da anexação e dos assentamentos, está na oposição. 

Mahmoud Abbas pode ter se precipitado, até porque  a decisão tomada por ele tem o potencial de iniciar um novo ciclo de violência - desta vez na Cisjordânia, não em Gaza. Mas está claro o temor por parte da liderança palestina diante do discurso de Netanyahu relativo ao projeto de anexação dos assentamentos. Nos próximos dias, este assunto certamente vai se desenvolver. 

Neste momento, há uma voz comemorando a decisão anunciada por Mahmoud Abbas; o grupo terrorista Hamas, adversário inclusive da própria Autoridade Palestina (AP) presidida por Abbas. 

O alto-oficial Saleh al-Arouri, liderança das atividades da organização na Cisjordânia, declarou que "o retorno da 'resistência' à Cisjordânia está mais próximo do que as pessoas imaginam". 

Numa guerra interna, o Hamas tomou a Faixa de Gaza da Autoridade Palestina em 2007. Desde então, há dois governos palestinos distintos; o da Cisjordânia, liderado pela AP e reconhecido amplamente pela comunidade internacional, inclusive por Israel; e outro, em Gaza, controlado pelo Hamas e questionado internacionalmente. Quando al-Arouri faz menção ao "retorno da resistência" ele se refere, na prática, à retomada do protagonismo do Hamas no território, possivelmente em substituição ao governo da própria AP de Mahmoud Abbas.