Rússia nega intenção de sediar encontro para debater conflito entre israelenses e palestinos

28 de Maio de 2020
Por Henry Galsky, de Israel A Rússia tem negado a intenção de realizar uma cúpula de negociação entre palestinos e norte-americanos. Mas os rumores sobre o eventual encontro surgem no momento em que os palestinos, como escrevi em meu texto mais recente, anunciaram a interrupção do que restava de relacionamento com os EUA, em especial o compartilhamento de informações com a CIA. 

Às vésperas da anunciada intenção do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de proceder com o processo de anexação de partes da Cisjordânia (território amplamente aceito pela comunidade internacional como parte de um futuro eventual estado palestino), a alternativa da cúpula em Moscou não seria um projeto sem propósitos. Esta seria uma jogada vencedora a duas das partes interessadas: a própria Rússia e o presidente palestino, Mahmoud Abbas. 

A Rússia conseguiu alterar a balança de poder no Oriente Médio. Não refiro-me tão somente à participação efetiva na defesa da manutenção do ditador Bashar al-Assad na presidência da Síria, mas a outros avanços e acordos regionais que transformaram o país no principal ator não-regional a quem todas as partes se reportam. 

Vladimir Putin exibe "vantagens" em relação a qualquer presidente norte-americano; como o líder russo tem poderes quase imperiais e a contestação interna é silenciada (pelo bem ou pelo mal), ele pode livremente atuar em diversas frentes. Isso se traduz na prática em negociação e diálogo com todos os atores do Oriente Médio; de Israel ao Irã, passando por Hamas, Hezbollah, Egito, Líbia e Arábia Saudita. Todos se sentam para negociar com Putin. 

O investimento do Kremlin em Donald Trump rendeu positivamente às intenções russas. Trump superou as expectativas dos russos, que inicialmente apostaram apenas na campanha que o atual presidente norte-americano empreendia de convencimento dos próprios cidadãos de que a atuação internacional dos EUA resultava em enormes gastos desnecessários. No Oriente Médio, já com a Rússia investindo diretamente na manutenção de Assad e no impedimento da concretização de um novo foco da Primavera Árabe na Síria, Trump optou por decisões que reduziram drasticamente a presença regional nos EUA. 

No caso específico do conflito entre israelenses e palestinos, as questões domésticas norte-americanas (que tem bastante relação com a base de cristãos evangélicos que ativamente apoia o presidente, assunto sobre o qual já tratei por aqui diversas vezes) levaram os EUA a optar por seguir um caminho menos pragmático e mais religioso. 

Desta maneira, apesar da importância incontestável dos EUA, o Oriente Médio deixou de ser a arena onde os norte-americanos trafegavam com facilidade e exerciam o papel de principal potência empenhada em estabelecer relações e encontrar caminhos políticos a partir da própria liderança. No caso novamente do conflito entre israelenses e palestinos, o plano apresentado por Trump no início deste ano - o chamado "Acordo do Século" - não apenas encontrou resistência, mas mudou as bases sobre as quais toda a lógica relativa ao tema foi estabelecida desde os Acordos de Oslo de 1993. 

Na ocasião, na primeira metade da década de 1990 - quando israelenses e palestinos se reconheceram mutuamente e se comprometeram a planejar e seguir etapas de modo a encerrar o conflito -, os EUA oficializaram também os parâmetros territoriais básicos que resultariam em fronteiras seguras a Israel e também no espaço onde os palestinos construiriam seu estado.

Mas Trump optou por outro desenho, imediatamente rejeitado pelos palestinos. Trump, portanto, tornou-se o primeiro chefe de estado norte-americano a reconfigurar o que há muito custo foi configurado por Bill Clinton (e mantido pelos seus sucessores Republicanos e Democratas, não importa) - muito embora o fator territorial não seja a razão principal a explicar o motivo pela qual o conflito ainda não tenha se encerrado, mas este é assunto para outro texto. 

Mas voltando a esta imaginada cúpula em Moscou, vale dizer que sua realização seria a demarcação russa de sua influência regional, desafiando novamente o já inexistente protagonismo solitário dos EUA. Por outro lado, o presidente Mahmoud Abbas certamente consideraria o evento como desafio ao discurso da administração Trump e seu "Acordo do Século". No final, como de costume, a cúpula terminaria com muitos discursos, mas sem qualquer resultado prático em relação ao objetivo inicial, mas serviria como resposta em especial ao plano de paz apresentado por Washington; e como mais uma vitória russa na explicitação da liderança do país no Oriente Médio.