Manifestações nos EUA expõem crise social e acrescentam novo elemento à disputa pela Casa Branca

02 de Junho de 2020
Por Henry Galsky, de Israel Ainda é cedo para cravar o impacto eleitoral dos protestos nos EUA. Mas está muito claro até agora que o presidente Donald Trump tem respondido de forma muito estomacal - o que é coerente com seu estilo, mas péssimo sob aspecto político. A candidatura do Democrata Joe Biden pode continuar a crescer, mas nem tudo é tão óbvio quanto aparenta ser. 

Trump está respondendo mal; ao dizer que os manifestantes seriam recebidos por "cães cruéis" e "armas ameaçadoras" caso a cerca da Casa Branca fosse violada, o presidente se distancia ainda mais de uma parcela importante da população. Além de não demonstrar a menor intenção de compreender as razões dos protestos, ele aprofunda a polarização. Isso não é por acaso. 

Lideranças desse movimento global de extrema direita atuam exatamente desta maneira; a divisão da sociedade apresenta o ambiente ideal para que se mantenham em seus cargos e continuem a colocar em prática suas agendas. O presidente brasileiro age da mesma forma, vale dizer. 

Trump, Bolsonaro, Virktor Orbán e as demais lideranças que simbolizam esta era dos extremos precisam se consolidar por meio de polarização. Qualquer discussão nunca é encarada de frente, mas pelas laterais. Os problemas não são debatidos em sua essência, e as respostas são baseadas no fértil terreno das teorias de conspiração. 

No caso das manifestações contra o racismo nos EUA, a atual administração vai pelo caminho óbvio: dedica-se a apontar excessos e os atos de vandalismo, de forma a desviar-se do foco da discussão. 

O presidente norte-americano apresenta um dilema simplório aos cidadãos (como costuma ser a lógica da polarização, portanto desconectada das complexidades da vida real): escolham entre a ordem e o caos (e há muitos casos de baderna, violência e vandalismo mesmo. Mas certamente nada disso invalida a razão das manifestações e suas origens). 

O objetivo não é apenas esvaziar o sentido dos protestos, mas sequer discutir suas motivações - que vão muito além da morte de George Floyd. 

A estratégia adotada pelo presidente Trump - que possivelmente seria a mesma aplicada por qualquer outro líder deste movimento atual de extrema direita - tem como norte a cartilha conceitual transformada em nova ordem política por Steve Bannon (sobre o qual já escrevi extensamente por aqui). Mas Bannon não é gênio e, por isso, sempre vale deixar claro que seus métodos estão longe da perfeição. 

E a situação nos EUA apresenta um ambiente onde Bannon pode falhar. Como ironia do destino, isso pode acontecer justamente em seu laboratório doméstico. 

Joe Biden está até agora bastante confortável. Nova pesquisa ABC News/Washington Post mostra que ele lidera a corrida presidencial por 53% a 43% das intenções de voto. E a vantagem não termina nesses dez pontos percentuais. Biden lidera em mais de 40 pesquisas nacionais realizadas no mês de maio. 

Enquanto isso, a taxa líquida de aprovação do presidente Trump (aprovação menos desaprovação) varia na casa de dez pontos negativos. Harry Enten, da CNN, lembra que apenas dois presidentes apresentaram resultados similares neste momento da campanha: Jimmy Carter e George Bush (pai de George W. Bush). E ambos perderam as respectivas disputas pela reeleição.

Ainda não é possível determinar a vitória de Biden, mas o cenário aponta este caminho. Muito embora considere complicado comparar esta campanha atual aos casos citados acima. Nenhum dos dois candidatos à reeleição trabalhava a partir da lógica de Trump e do movimento da extrema direita. 

Mais importante ainda, nenhum deles contava com ferramentas de divulgação em massa de desinformação com o objetivo de difamar seus adversários. Este ponto especificamente é muito importante e, como em 2016, pode definir o resultado. O que se pode dizer até agora - e tudo muda muito rapidamente - é que Trump tem uma caminhada difícil pela frente. E que fica mais difícil a cada dia em que os protestos continuam a acontecer nos EUA.