Em tempos de manifestações, o Produtivismo reafirma seus preceitos

09 de Junho de 2020
Por Henry Galsky Não era de se esperar nada diferente, mas preciso lembrar que, nos EUA, os protestos têm provocado a reação do setor de extrema direita local. Não me refiro aos embates nas ruas, neste momento. Até porque, na ordem do dia, as marchas e manifestações pretendem discutir o racismo e colocá-lo na pauta do debate nacional da identidade norte-americana e dos rumos que o país irá tomar a partir de agora.

E aí, num olhar mais pragmático e imediatista quanto ao processo eleitoral de novembro próximo, o caminho estaria aberto a Joe Biden, o candidato Democrata, ex-vice-presidente de Barack Obama e que já lidera a corrida presidencial, conforme mencionei em detalhes no meu último texto. 

Mas aí, para surpresa de ninguém, os conceitos relacionados à extrema direita adaptam-se de forma a contrapor-se à realidade que emana das ruas e das redes sociais. 

Trato sempre por aqui do "Producerism" - que traduzo como "Produtivismo" - porque entendo que esta lógica muito simplificada e simplória está na base do reducionismo profetizado pela extrema direita e por seu braço de fake news que se espalha mundialmente a todo o vapor, inclusive aqui no Brasil - onde, vale dizer, as perspectivas de superação das fake news me parecem distantes, muito distantes. 

De qualquer forma, voltando ao debate nos EUA, o polo político da extrema direita corre atrás dos prejuízos evidentes que a nova onda de manifestações tem lhe causado. Essa corrida pretende interromper a vantagem de Joe Biden que, neste momento, ameaça  de forma evidente o projeto de reeleição de Donald Trump e, por consequência, a visão global e conectada dos movimentos afins ao redor do mundo. 

Ninguém mais interessado em evitar esta sangria - que pode vir a simbolizar o início de uma tendência, não se sabe - do que Steve Bannon, ex-estrategista chefe da Casa Branca e personificação do projeto político de unificação e retroalimentação da extrema direita mundial com auxílio fundamental da dinâmica das fake news. 

Importante ter em mente que o "Producerism" é o movimento que busca encontrar culpados pelos problemas da sociedade a partir de uma lógica binária de extratificação social entre "os que produzem" e "os que pegam pronto". A teoria tem uma série de desdobramentos locais, tendo sido adaptada também aqui no Brasil. Não por acaso, uma série de setores da vida econômica, social e política do país passaram a ser rotulados como "vagabundos" de forma ampla. 

Nos EUA, o "Producerism" pretendia em primeiro lugar proteger a chamada "classe trabalhadora branca". Por isso, foi importante manter-se firme no propósito de estigmatização das minorias. As manifestações em massa contra o racismo representam ameaça direta ao "Producerism". E assim Steve Bannon partiu para o contra-ataque apelando ao imaginário mais óbvio e de fácil entendimento pelo seu público; 

Em entrevista ao canal FOX News, Bannon tratou de aplicar a ideia de polarização. A entrevista foi concedida no dia seguinte ao lançamento do foguete da SpaceX, daí a referência:

"Bem, ontem, acho que você viu os dois futuros alternativos para a América. No lançamento no Cabo Kennedy, você viu as oportunidades para a América liderando a quarta revolução industrial (...). E tarde da noite, você viu o que poderia acontecer pelo desmembramento da anarquia e da divisão racial. Está tudo dentro - você fala sobre lei e ordem. É lei e ordem baseadas em uma economia robusta".

Deu para entender. É claro que não se trata de descartar as imagens de saques e vandalismo. Mas este não é o foco das manifestações, nem certamente representa os interesses da maioria dos participantes. Bannon, no entanto, não apresenta qualquer formulação sobre racismo e exclusão. E aponta qual será o caminho da campanha do presidente em busca de reeleição. 

Bannon quer "proteger a sociedade produtiva da onda de baderneiros". E usa as manifestações a favor deste discurso, corrompendo-as, ressignificando seus objetivos a partir do grande arsenal de imagens disponíveis. Para Bannon - para os adeptos do "Producerism" - não apenas os EUA, mas o mundo tem apenas dois extremos; o capital de inovação fruto do trabalho (representado no caso que mencionei pelo lançamento do foguete da SpaceX) ou a baderna (neste caso, representado pelo vandalismo da minoria dos manifestantes). 

Diante deste quadro, não há espaço para discussões sobre racismo e desigualdade, apenas para uma escolha entre dois imaginários pautados pela lógica simplória do "Producerism". Esse é o discurso da extrema direita organizada a partir de agora em que a pauta das discussões tomou um rumo não mapeado, mas certamente muito desfavorável a seus adeptos.