O exemplo da Nova Zelândia e as perspectivas deste novo mundo em construção

12 de Junho de 2020
Por Henry Galsky Já discuti por aqui muitas vezes sobre o mundo que irá surgir após a pandemia. Na verdade, isso não vai acontecer de um dia para o outro, mas trata-se de um processo em construção diariamente. Os países que conseguiram obter melhores resultados e reduzir a mortalidade entre seus cidadãos estão em posição privilegiada. Já saem na frente no estabelecimento desta nova ordem mundial. 

Sim, haverá uma ordem mundial. E ela virá como no pós-guerra. Mas, ao contrário do que aconteceu nas experiências trágicas dos dois grandes conflitos mundiais do século 20, não haverá países não afetados, mas, sim, países que souberam administrar a crise de forma mais racional. E refiro-me aqui a importantes perdas populacionais e econômicas, para ser mais preciso.

O ator global mais bem-sucedido neste aspecto sem dúvida é a Nova Zelândia, que no último dia 8 anunciou a eliminação do vírus. A liderança responsável e competente da primeira-ministra Jacinda Ardern é um exemplo silencioso em meio ao populismo destrutivo e barulhento que se impõe em muitas partes do mundo neste momento. 

O caso neozelandês é bem interessante. Naturalmente, o mérito é todo da gestão de Ardern, mas não se pode esquecer que, bem, no momento em que isolamento é a única maneira conhecida de conter a propagação do vírus a Nova Zelândia ser uma ilha ajuda. Ajuda muito. 

Além disso, muita gente pode argumentar que a questão demográfica é um fator facilitador. Sim, é verdade; a pequena população de 5 milhões de habitantes pode ser considerada um item importante no controle da doença no país. Mas, como eu disse, a Nova Zelândia não tem culpa disso. E é preciso levar em conta que, deste total de habitantes, 86,7% dos neozelandeses vivem em áreas urbanas, o que poderia ter provocado aumento no contágio, o que não aconteceu. 

Mas é pouco provável o país emergir como potência. Pelo menos solitariamente. Mas, neste ambiente pós-crise, não seria absurdo imaginar o fortalecimento de um eixo entre a Nova Zelândia e seus atuais principais parceiros comerciais: China, Austrália, EUA, Japão, Alemanha e Tailândia. A depender do cenário, mesmo sem a participação dos EUA.

E há uma razão para isso; possivelmente, o país estará mais envolvido na resolução de seus próprios problemas. Imersos em crises política, identitária, sanitária e econômica, é provável que os norte-americanos se fechem ainda mais ao restante do mundo. 

E não se sabe por quanto tempo os EUA permanecerão indisponíveis. Ao longo deste ano, o país tem pela frente uma disputa eleitoral duríssima. Se o jogo for o mesmo de 2016, certamente não será um caminho tranquilo a ser percorrido. Sem contar que ninguém pode garantir que, em caso de derrota nas urnas, o movimento de extrema direita que levou Donald Trump à Casa Branca irá aceitar as regras de forma silenciosa. 

Muito embora seja importante lembrar sempre que os EUA jamais viveram um período de exceção política. É absolutamente improvável que isso aconteça agora. No entanto, este tem sido um tempo em que muitas improbabilidades se tornaram reais. 

Para além da Nova Zelândia de Ardern, o restante do planeta está afundado em números que refletem uma realidade que inspira pouco otimismo. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 1,6 bilhão de trabalhadores da economia informal serão profundamente impactados. Apenas no segundo trimestre deste ano a perda estimada é de 305 milhões de empregos. 

Os dados acima representam apenas uma parte das informações que nos ajudam a entender as perspectivas. E por isso o exemplo da Nova Zelândia é tão importante. Num período como este, não há espaço para amadorismo, negacionismo e repetições de teorias de conspiração. Pelo menos aos países que pretendem sair disso com a capacidade mínima para proteger seus cidadãos diante da realidade de terra arrasada que se apresenta no horizonte.