Novos protestos no Líbano mostram que o país tem uma equação muito difícil a solucionar

18 de Junho de 2020
Por Henry Galsky, de Israel Em outubro do ano passado, abordei por aqui as grande manifestações que levaram os libaneses às ruas do país. Na ocasião, a revolta popular teve como pano de fundo o anúncio de que haveria aplicação de impostos sobre ligações telefônicas realizadas por meio de WhatsApp. Evidentemente, esta não era a única razão dos protestos. A população estava cansada de corrupção e faltas de perspectivas e, dentre outras demandas, exigia a queda do governo e sua substituição por tecnocratas capazes de olhar o país sob prisma mais pragmático. 

Atualmente, os libaneses estão nas ruas novamente. E, com a crise que já existia agravada pela pandemia mundial e suas inúmeras consequências, as pessoas estão queimando bancos e bloqueando estradas. A situação gravísssima do país não foi resolvida, mesmo depois que os "tecnocratas" assumiram o governo. Em janeiro deste ano, antes portanto da crise mundial ainda em curso, o primeiro-ministro Saad Hariri deixou o cargo, sendo substituído por Hassan Diab. 

De fato, houve um meio do caminho levado adiante pelo novo primeiro-ministro. Os "tecnocratas" chegaram ao governo, mas são vinculados à estrutura política que foi alvo das manifestações de 2019. Como agravante, esta é a primeira coalizão parlamentar liderada pelo braço político do Hezbollah. E aqui é preciso fazer uma observação: por mais que o grupo terrorista tenha se expandido a ponto de se tornar parte integrante - e cada vez mais indissociável - do Líbano, o governo de Diab representa um novo desafio à milícia xiita. O Hezbollah é agora o principal fiador e protagonista da organização política do pais justamente no momento em que o Líbano - assim como o restante do planeta - enfrenta seu maior desafio. 

A moeda local, a libra libanesa, é atrelada ao dólar desde 1997. Ao assumir o cargo, o primeiro-ministro Hassan Diab estabeleceu como uma de suas metas alcançar uma taxa de câmbio de 3.500 libras para cada dólar. Com as dificuldades econômicas aumentando ainda mais nesses dias, o mercado paralelo chegou a cotar um dólar a 6 mil libras. Considerando a desvalorização já existente em 2019 na casa dos 30%, a realidade que se apresenta agora é muito complicada. 

E não apenas a desvalorização monetária explica as novas manifestações, mas a queda absoluta do poder de compra e o aumento da pobreza. A ordem social no país está comprometida. Com o Hezbollah na liderança do governo - e provavelmente incapaz de dar as respostas práticas que a população precisa -, a situação regional pode se deteriorar. 

O país não pode recorrer aos iranianos já desgastados pelo peso das sanções econômicas. Agora, precisa olhar para as monarquias do Golfo, majoritariamente contrárias ao projeto de expansão regional do Irã. A única possibilidade de auxílio a partir da visão ideológica do Hezbollah é o Catar, mas certamente o país não poderá sozinho arcar com o socorro aos libaneses, cujo governo já acumula 90 bilhões de dólares em dívidas. 

A situação no Líbano é dramática, lembrando que, mesmo num ambiente anterior à pandemia, o estado já não apresentava crescimento econômico superior a 1% ao ano no período dos últimos cinco anos. 

Por tudo isso, este é um momento importante que pode resultar em três caminhos a serem seguidos pela liderança em Beirute: o governo pode optar por aumentar a repressão às manifestações enquanto busca ganhar tempo para encontrar soluções econômicas junto a seus parceiros tradicionais (igualmente envolvidos em seus problemas domésticos); o país pode procurar alterar sua visão regional acenando ao eixo das monarquias sunitas do Golfo e, portanto, abandonando o Irã, mesmo que apenas momentaneamente;o Hezbollah busca retornar a seu lugar militar tradicional e, assim, decide iniciar um novo conflito regional. 

De todas as opções, apenas a solução que mira uma nova aliança com as monarquias sunitas resultaria num caminho menos traumático sob o aspecto regional e certamente mais positivo à própria população libanesa. Mas é muito improvável que isso aconteça, justamente em função do protagonismo do Hezbollah e da ampliação de seu poder político. Este é um momento grave e parece que os libaneses não têm muito para onde correr. Se o candidato Democrata Joe Biden vencer as eleições norte-americanas de novembro, talvez haja um novo caminho. Mas, mesmo assim, é impossível imaginar qualquer governo em Washington que aceite a atual posição do Hezbollah no Líbano e considere negociar com Beirute nessas condições.