É improvável que Benjamin Netanyahu siga adiante com o projeto de anexação de 30% da Cisjordânia

23 de Junho de 2020
Por Henry Galsky Este é o tipo de assunto que normalmente ocupa a posição central da pauta da imprensa internacional: no próximo dia 1 de julho, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, diz que irá anexar 30% da Cisjordânia de forma a implementar o chamado Acordo do Século divulgado em janeiro deste ano pelo presidente dos EUA, Donald Trump. O acordo, rejeitado na saída pelos palestinos, estabelece uma série de etapas que se concluiriam com uma tratado de paz definitivo entre as partes e com a criação de um estado palestino em 70% da Cisjordânia, Gaza e em territórios de compensação que hoje fazem parte de Israel. 

A relação de Israel com a Cisjordânia é antiga, dos tempos da Torá. Os judeus chamam essa porção do território de Judeia e Samária. Hoje, há uma espécie de consenso internacional, no entanto, de que a solução do conflito ainda passa pelo estabelecimento de dois estados - Israel e a futura Palestina - e que as fronteiras de ambos seriam definidas em negociações diretas tendo como princípio amplo a chamada Linha Verde, a divisão territorial estabelecida depois da vitória israelense na Guerra dos Seis Dias, em 1967. A Cisjordânia - ou Judeia e Samária - seria, portanto, parte de um estado palestino. 

Mas este é um norte, uma forma de orientar as negociações. Por meio dessas negociações, haveria troca de territórios. Hoje, há 132 assentamentos judaicos na Cisjordânia - ou Judeia e Samária. Parte considerável desses assentamentos é hoje formada por cidades estruturadas, com o caso de Ariel, que tem 20 mil habitantes e mais dez mil estudantes que entram e saem diariamente. Cerca de 15 mil alunos, judeus e árabes, estudam na universidade local (foto). É possível que, num acordo definitivo, Ariel se torne parte de Israel e os palestinos sejam compensados com território israelenses de tamanho equivalente. De modo mais ou menos uniforme, este tem sido o formato de propostas de paz desde a assinatura dos Acordos de Oslo, em 1993. 

O Acordo do Século divulgado neste ano interminável de 2020 seguiu um caminho distinto. Ele permite que Israel retenha todos os 132 assentamentos e anexe diretamente 30% da Cisjordânia - ou Judeia e Samária. 

Netanyahu diz que, como concorda com o acordo apresentado pelo presidente Trump, vai seguir adiante com a parte que lhe cabe na história; a anexação, portanto. Já há uma série de ameaças a Israel de forma a dissuadir o primeiro-ministro de seguir adiante com o plano. Não apenas o movimento de boicote está ansioso para que Netanyahu dê ao grupo o seu maior troféu. Mas vozes moderadas no Oriente Médio também se colocaram publicamente. 

Dentre essas vozes, a de Yousef Al-Otaiba, embaixador dos Emirados Árabes Unidos (EAU) nos EUA. Em um raro texto publicado em hebraico no jornal israelense Yedioth Ahronoth, Al-Otaiba apresentou os riscos de instabilidade regional, caso Israel leve mesmo o plano adiante, e diz que o gesto "certamente reduzirá as aspirações israelenses de melhorar a segurança, os laços econômicos e culturais com o mundo árabe e com os Emirados Árabes Unidos". Lembrando que, formalmente, Israel e os países do Golfo Pérsico não mantêm relações diplomáticas. Mas a ascensão regional do Irã aproximou israelenses e as monarquias árabes e, na prática, os contatos já existem e têm aumentado. A normalização de relações com troca de embaixadores talvez ainda não esteja próxima, mas é uma possibilidade que surge a cada ano com mais força no horizonte político do Oriente Médio. 

Para além dos países do Golfo, vale dizer também que a pressão para que Netanyahu não siga com a anexação - mesmo que permitida pelo Acordo do Século - chega a Israel de toda a parte. Há duas semanas, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, esteve no país e se reuniu não apenas com o primeiro-ministro, mas com Gabi Ashkenazi, ministro das Relações Exteriores, e Benny Gantz, vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa. Israel e Alemanha mantêm relações próximas. A partir de julho, os alemães assumirão a presidência rotativa do Conselho da União Europeia. A Alemanha se opõe a qualquer movimento unilateral de anexação que venha a ser levado adiante por Jerusalém. 

A Jordânia seguiu o mesmo caminho, inclusive deixando claro que considera o gesto a concretização da impossibilidade da solução por meio de dois estados, consenso internacional até hoje em relação ao conflito entre Israel e os palestinos, como escrevi mais acima. A Jordânia é um dos dois estados árabes que fazem fronteira com o estado judeu a manter relações diplomáticas com Israel. Como escrevi por aqui muitas vezes, por mais que os acordos com Egito e Jordânia não tenham rendido a construção de laços de cooperação em sua plenitude, ambos são fundamentais para a manutenção da paz regional. Sempre é importante lembrar que, no histórico das guerras árabe-israelenses, não houve um único conflito sem a participação fundamental do Egito. E todos os conflitos só terminaram a partir do momento em que os egípcios desistiram do enfrentamento. 

Ainda está pouco claro o que vai acontecer no próximo dia 1 de julho. Mas está claro que Israel tem muito pouco a ganhar, inclusive porque a equipe de Joe Biden, candidato Democrata e que hoje está na dianteira da corrida presidencial norte-americana, já declarou oposição ao projeto publicamente. Como se sabe, os EUA são o principal aliado internacional de Israel. Mesmo a administração Trump está envolvida com outras questões neste momento. A anexação seria apenas uma dor de cabeça a mais, muito embora Trump possa conceder apoio em função do eleitorado evangélico norte-americano. Setores importantes da comunidade judaica norte-americana são contrários à anexação. 

Não gosto de fazer apostas, mas vamos lá (acho que cabe neste caso): por todo este cenário, creio que Netanyahu não irá levar adiante a anexação. Pelo menos não plenamente. Talvez apresente um desenho bem reduzido - por exemplo, limitando o escopo a Maale Adumim, a leste de Jerusalém, Ariel, já mencionado neste texto, e Gush Etzion, conjunto de assentamentos ao sul de Jerusalém. A questão mais problemática, o Vale do Jordão, não deve ser incluída de forma a evitar todas as consequências ao país. 

Para complementar, como expliquei ao longo do texto, a chamada Linha Verde (nome dado à linha que marca o acordo de armistício assinado entre Israel e  quatro dos seis países árabes que invadiram o país após a declaração de independência, em 1948) serve como parâmetro para o estabelecimento de fronteiras finais dos dois países - Israel e o futuro estado da Palestina. A anexação desses quatro assentamentos (Maale Adumim, Ariel, Gush Etzion e, além deles, Modi'in Ilit) é interpretada por setores políticos dentro e fora de Israel de forma mais consensual, porque se imagina que num acordo final Israel não abriria mão desses territórios e compensaria os palestinos com porções de terra equivalentes em área.