E, por enquanto, a anexação não aconteceu

01 de Julho de 2020
Por Henry Galsky, de Israel E então o dia da anexação - ou aplicação de soberania por Israel - chegou. E ela não aconteceu. Aliás, conforme escrevi nos dois textos em que analisei o assunto de forma detalhada (os links para ambos estão ao final deste). A verdade é que não era difícil prever este desfecho, mesmo que momentâneo. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu criou para si este problema ao estabelecer uma data. No primeiro momento, era a data em que a aplicação de soberania seria anunciada. Depois, o dia 1 de julho marcaria o início do processo. Por enquanto, nenhuma das duas promessas foi levada adiante. E por razões óbvias. 

Israel tem muito pouco a ganhar com isso. Para além dos cerca de 450 mil israelenses que vivem nos assentamentos na Cisjordânia/Judeia e Samária, há pouco interesse da sociedade israelense no projeto. Aliás, houve uma série de manifestações em Israel para expressar oposição à anexação/aplicação de soberania. E não apenas a sociedade israelense e a comunidade internacional se opõem ao plano, mas o próprio governo está dividido. Este é um dos pontos mais importantes dessa história toda. 

É possível mesmo que o próprio Netanyahu não tenha interesse em levar isso adiante. Fez a promessa durante as três duríssimas rodadas eleitorais que terminaram apenas graças a uma coalizão com os adversários, em especial o líder do partido Azul e Branco Benny Gantz, tornado vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa enquanto espera a sua vez de assumir a liderança do governo no ano que vem. Este é um problema para Netanyahu, que, obviamente, depois de ser a personificação do cargo desde 2009, não quer entregar o posto a seu vice com o qual trocou ofensas durante as campanhas ao longo de um ano. E aí o "fracasso" do projeto de anexação/aplicação de soberania lhe cai bem.

Netanyahu pode simplesmente culpar Benny Gantz, Gabi Ashkenazi e todos os ministros do Azul e Branco que teve de engolir em seu governo como os culpados pela anexação não ter seguido adiante. Lembrando sempre que o primeiro-ministro enxerga o assunto de maneira completamente distinta; para ele, a aplicação de soberania israelense a 30% da Cisjordânia/Judeia e Samária constitui o primeiro passo para a implementação do chamado Acordo do Século divulgado em janeiro por Donald Trump - e, portanto, o primeiro passo para a resolução do conflito com os palestinos. 

Evidentemente, ele sabe que o processo não funciona assim, mas esta narrativa serve para deixar claro que Gantz e a turma do Azul e Branco se opõem ao plano e, no final, ao próprio Donald Trump. Para ir mais além, a ideia é tornar tudo muito simplório e encaixar Gantz e seus aliados como parte da "esquerda", uma vez que se oporiam aos assentamentos. Tudo isso já funciona também como o primeiro passo na construção de slogans, explicações e acusações a serem usados durante a próxima campanha eleitoral. Sim, até porque o objetivo de Netanyahu é se livrar da incômoda presença de seus opositores na coalizão. E, claro, sem que seja necessário passar o cargo a Gantz, conforme previsto no acordo de coalizão assinado por ambos e que evitou a realização da quarta rodada eleitoral em um ano - o que seria ainda mais grave durante esta crise sanitária. 

Ao longo dos últimos dias, a oposição entre Gantz e Netanyahu ficou ainda mais exposta. Não apenas porque cada um se manifesta de forma distinta em relação ao projeto de aplicação de soberania israelense, mas também porque tem sido muito difícil contornar a rivalidade pública entre ambos. 

Nesta semana, ocorreu uma situação absolutamente constrangedora - em especial a Gantz. Netanyahu encerrou uma conferência de imprensa sem dar a palavra a Gantz. Os microfones permaneceram abertos e captaram o incômodo do vice-primeiro-ministro, que pediu a intervenção de uma terceira pessoa. Ao ser questionado, Netanyahu se recusou a conceder a palavra a Gantz. Pior, sequer lhe dirigiu o olhar, mesmo que ambos estivessem sentados a menos de dois metros um do outro. Os microfones captaram ainda Netanyahu dizer de maneira seca um "depois ele (Gantz) fala" ao interlocutor que foi interceder por Gantz. Está claro e não é possível disfarçar: não há parceria, mas tolerância. Limitada. A corda está sendo esticada dia após dia. 

Por sua vez, Gantz procura apresentar um novo perfil ao eleitorado: de que ele se sacrifica em nome do momento e da realidade que se apresentam. Adota a postura de profundo pragmatismo. Não se sabe se, numa eventual e cada vez mais provável nova eleição, isso seria suficiente para manter o poder e a quantidade de assentos no Knesset, o parlamento, que lhe foram concedidos nas três eleições anteriores. As pesquisas mostram que não. Na verdade, o Azul e Branco sob a liderança de Gantz não chegaria a dois dígitos de cadeiras, de acordo com levantamentos recentes. Na terceira eleição, conquistou 33 cadeiras. Lembrando que o Knesset tem um total de 120 assentos. 

Este enfraquecimento de Gantz pode explicar ao menos em parte o tratamento destinado por Netanyahu a seu vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa. Quanto mais o Azul e Branco derrete, menos relevante Gantz se torna politicamente.

Benjamin Netanyahu sente que se trata apenas de uma questão de tempo. Se conseguir segurar o vírus, se conseguir retomar parte dos empregos perdidos, este modelo de parceria forçada entre os dois principais adversários do cenário político israelense de hoje não precisará mais existir. E o novo governo vai ser erguido, uma vez mais, com Bibi na liderança. Mais forte e menos dependente de coalizões. É esta a análise que o primeiro-ministro faz todos os dias. Gantz faz a mesma análise. Mas vê, a cada dia, o seu poder de barganha escorrer-lhe por entre os dedos. 


Links: 

CISJORDÂNIA OU JUDEIA E SAMÁRIA? ANEXAÇÃO OU SOBERANIA? COMO OS LADOS OPOSTOS ENXERGAM O ASSUNTO


É IMPROVÁVEL QUE BENJAMIN NETANYAHU SIGA ADIANTE COM O PROJETO DE ANEXAÇÃO DE 30% DA CISJORDÂNIA