Avanços nucleares, ameaças do Irã a Israel e o silêncio da comunidade internacional

07 de Julho de 2020
Por Henry Galsky, de Israel Nas duas últimas semanas, complexos nucleares e instalações ligadas ao regime iraniano têm sido alvos de estranhos ataques. O complexo nuclear de Natanz (foto), localizado a 250 quilômetros ao sul de Teerã, foi um dos locais atingidos. Não parece coincidência. 

O serviço em idioma persa da BBC recebeu uma declaração de um grupo desconhecido denominado "Leopardos da Pátria" reivindicando a autoria do ataque a Natanz. De acordo com o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, a causa principal da explosão já foi determinada e será anunciada "em momento apropriado". 

Na última quinta-feira, em entrevista coletiva à imprensa israelense para falar sobre o enfrentamento à pandemia, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu foi questionado por uma jornalista local sobre o ocorrido no Irã, mas limitou-se a dizer que não comentaria o assunto. 

Israel e Irã já se enfrentam no Oriente Médio. Vale dizer, direta ou indiretamente, mais abertamente ou não, a rivalidade entre os países se intensificou nos últimos anos. O Irã provê armamento, tecnologia e recursos financeiros aos inimigos estabelecidos no entorno do estado judeu. O Hezbollah libanês, ao norte - hoje a força paramilitar com a maior capacidade de enfrentar os israelenses -, a Jihad Islâmica Palestina (PIJ), em Gaza, ao sul, e as diversas milícias xiitas em atuação na Síria que se aliaram à República Islâmica com o propósito de se fixar bases no lado sírio das Colinas de Golan. 

Como já escrevi tantas vezes por aqui, o projeto de expansão e construção de hegemonia regional do Irã é incompatível ao projeto israelense de manter fronteiras seguras e superioridade militar no Oriente Médio. A anulação dos objetivos entre os dois países é a chave para se compreender a escalada nas tensões entre ambos. 

O projeto nuclear iraniano - e seu propósito final de armar mísseis com ogivas nucleares - é inaceitável a Israel. E aqui é preciso dar uma pausa nas análises internas sobre política israelense que tenho escrito. O projeto do Irã é uma ameaça à própria existência do estado judeu. E neste ponto não se tratam de discussões sobre direita ou esquerda. O olhar estratégico de defesa de Israel considera que o passo iraniano rumo à obtenção de armamento nuclear representa um caminho sem volta - e sem precedentes também - para deixar o país em situação muito vulnerável. 

Ninguém nos círculos relevantes da política e da defesa de Israel concebe permitir ao Irã o direito da dúvida. O futuro de Israel não pode ser, portanto, definido pela boa vontade do regime iraniano. Até porque, vale lembrar, o ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad iniciou um caminho sem volta na forma como os altos representantes do Irã se dirigem ao estado judeu. 

Desde 2008, quando o então presidente Ahmadinejad declarou que “Israel deveria ser varrido do mapa” durante discurso oficial na Assembleia Geral da ONU (!), outros tantos membros de governo e oficiais do país seguiram o mesmo caminho e corroboraram esta afirmação várias vezes sem qualquer constrangimento. E sem nenhuma punição por parte da comunidade internacional. 

Recentemente, o Líder-supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, foi ao twitter publicar sua visão sobre Israel. No dia 22 de maio, disse, uma vez mais, que Israel representa "um crescimento mortal, canceroso e um prejuízo para esta região. Sem dúvida, será arrancado e destruído". Ou seja, para surpresa de ninguém, Khamenei foi ao Twitter defender um genocídio. E, também para surpresa de ninguém, não foi minimamente punido. Nem teve sua conta excluída. 

Apesar das sanções contra o Irã em função do avanço de seu programa nuclear - que ficaram ainda mais pesadas depois de determinação do atual governo norte-americano -, a comunidade internacional se mantém relativamente silenciosa. Permanece assim mesmo diante de inúmeras manifestações das lideranças iranianas. Quando a maior autoridade do país diz publicamente e por escrito numa rede social que Israel será "arrancado e destruído", ele está claramente defendendo o genocídio de toda a população israelense. 

E quando a comunidade internacional deixa isso de lado e trata o assunto com absoluto descaso, ela alimenta a determinação das autoridades israelenses de seguir adiante por conta própria para frear os avanços nucleares do Irã. Se no futuro houver uma guerra aberta entre israelenses e iranianos, esta mesma comunidade internacional deverá ser lembrada por ter se mantido em silêncio durante todo este tempo. 

Em tempo: de acordo com reportagem do Canal 12 israelense, o ataque ao complexo nuclear de Natanz teria sido capaz de atrasar o programa de enriquecimento de urânio por parte dos iranianos em dois anos.