Crises e explosões agravam cenário interno no Irã

15 de Julho de 2020
Por Henry Galsky Vale fazer as conexões políticas - internas e externas - de forma a finalizar por ora a análise sobre as explosões em sequência que tem ocorrido em território iraniano. O primeiro aspecto é interno: o presidente Hassan Rouhani (foto) foi convocado a dar explicações e pode inclusive ter de passar por um processo de impeachment. Formalmente, Rouhani é questionado pela situação econômica, mas não se pode afastar que seu cargo esteja a perigo também pela vulnerabilidade apresentada no aspecto de segurança interna.

Um dos parlamentares, Gholamhossein Karami, foi muito duro com o ministro das Relações Exteriores Javad Zarif, uma das figuras mais proeminentes e o porta-voz internacional do regime. "O que aconteceu foi resultado do pensamento revolucionário da resistência? Foi resultado de seus esforços ou de Qassem Soleimani? Você pode indicar uma área onde as teorias do governo do senhor Rouhani não tenham atrasado o país?". 

Há muita insatisfação no parlamento em relação ao presidente Rouhani. Mas o questionamento do deputado Karami apresenta uma narrativa que vai além das muitas crises internas a afetar o Irã. Tanto que há a citação explícita a Qassem Soleimani, o ex-chefe da força Quds do Corpo da Guarda Revolucionária morto pelos norte-americanos em janeiro deste ano. Soleimani era o braço que comandava e colocava em prática as alianças do país em sua estratégia de busca por hegemonia regional. Há muitos analistas que o consideram insubstituível, dando ainda mais peso ao golpe sofrido pelo regime no início de 2020. 

O ambiente no Irã está formado. Como costumo apresentar por aqui, as crises são muitas e vão desde a arriscada oposição interna - em especial da classe média urbana - ao desemprego, passando pelos equívocos cometidos pelo governo ao desviar cursos de rios, deixando o país na iminência de uma grave crise hídrica. Quando o presidente Donald Trump optou por deixar o acordo nuclear assinado em 2015 (costurado pelo ex-secretário de Estado John Kerry durante o mandato de Barack Obama), os iranianos voltaram a sentir o peso das sanções. E todo esse somatório foi agravado pela pandemia. 

Vale sempre lembrar que o regime não vai cair sem reagir. Ainda em relação ao que escrevi em meu último texto, é importante acrescentar que, para além da estratégia de hegemonia regional, a prioridade mais básica do regime é, claro, a manutenção de sua própria existência. E aqui chegamos ao ponto de atrito com Israel num conflito que deixa a cada dia o mundo das sombras e pontualmente - com mais frequência - caminha para se tornar aberto (não sabemos exatamente qual será o formato, mas ataques e contra-ataques têm ocorrido de forma mais periódica). 

O Canal 12 israelense relatou que o Mossad, o serviço secreto de Israel, impediu a concretização de ataques iranianos a alvos do país no exterior. Por questões de segurança, a localização de onde precisamente ocorreriam esses ataques não foi divulgada. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu estendeu por mais um ano o mandato de Yossi Cohen no Mossad. Cohen é considerado um dos responsáveis pelos atos de sabotagem às instalações nucleares iranianas. 

Como evidência de quanto Israel se empenha para impedir que o Irã dê prosseguimento ao projeto nuclear, o país lançou no início de julho o satélite-espião Ofek 16 cuja câmera permite a identificação de objetos de 50 centímetros, mesmo que o satélite esteja a uma altura de 450 quilômetros. Este é o sétimo equipamento israelense lançado para orbitar a Terra e transmitir informações em tempo real.