As possíveis consequências políticas da crise em Israel

21 de Julho de 2020
Por Henry Galsky, de Israel No último dia 15, uma pesquisa publicada pela rádio 103FM de Israel apresentava mudanças políticas importantes que a crise causada pela pandemia atual pode provocar no país, caso haja novas eleições. O cenário reflete um profundo desgaste do governo, da liderança de Benjamin Netanyahu e também de seu desafeto - com o qual tem seguidos atritos - Benny Gantz, o vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa que, pelo acordo de coalizão, deverá assumir o cargo de primeiro-ministro no segundo semestre do ano que vem. 

Os números deixam muito claro que Netanyahu e Gantz perdem força diante do eleitorado. E por razões óbvias, uma vez que são as duas figuras políticas a liderar o país neste momento tão complexo e que apresenta desafios inéditos. A pesquisa mostra o Likud de Netanyahu ainda na dianteira, mas perdendo duas cadeiras em relação ao resultado eleitoral de março deste ano (de 36 para 34). O maior prejudicado seria Gantz, que, tendo como comparação a representação atual do partido Azul e Branco no parlamento, perderia seis cadeiras (de 15 para a nove). 

O atual Azul e Branco - este que obteria menos de dois dígitos de assentos no Knesset - não é o mesmo que disputou as eleições de março. Na ocasião, a aliança incluía os partidos Resiliência de Israel (de Gantz) e contava também com Yesh Atid, de Yair Lapid, e Telem, do ex-chefe do Estado Maior Moshe "Bogie" Ya'alon. Esta aliança entre os três conquistou 31 cadeiras em março. Mas foi desfeita porque Yesh Atid e Telem não toparam entrar na coalizão de governo. Gantz aceitou o acordo com Netanyahu e agora amarga uma posição para lá de desconfortável. 

E não apenas isso: além das constantes exposições e do desgaste com seu rival-parceiro Netanyahu, o líder do que restou do Azul e Branco está rapidamente perdendo força diante do eleitorado que, seguindo um raciocínio lógico, não compreendeu a aliança com o primeiro-ministro. Vale sempre reforçar que a chapa Azul e Branco original foi formada a partir da união das três lideranças - Gantz, Lapid e Ya'alon - com o objetivo central de derrotar o longevo Netanyahu. Mas Gantz assumiu posição pragmática ao embarcar na coalizão de forma a evitar uma quarta rodada eleitoral e formar um governo cujo foco era em teoria o combate à pandemia e suas consequências sanitárias e econômicas. 

Mas aí uma outra pesquisa mostra o quanto esta coalizão está desgastada também em relação a todas as questões listadas acima; de acordo com levantamento do Israel Democracy Institute (IDI), 75% dos entrevistados fazem análises negativas sobre a maneira como o governo gerencia a crise. Mais ainda, apenas 23% dizem confiar nos especialistas da pasta de economia, quando este percentual estava em 54% três meses atrás. 

Benny Gantz tem buscado mais protagonismo no governo. Reivindica que o Ministério da Defesa, sob seu comando, possa atuar de maneira mais assertiva no combate à crise, exatamente como foi permitido a seu antecessor Naftali Bennett (voltaremos a Bennett um pouco mais adiante). Mas Netanyahu quer distanciar Gantz, uma vez que, pesquisa após pesquisa, o percebe cada vez mais irrelevante. O problema para Netanyahu - além das acusações e do julgamento que enfrenta - é que ele próprio tem se desgastado bastante. Inclusive passou a receber críticas da própria direita e do setor ortodoxo da sociedade, tradicionais apoiadores das coalizões lideradas pelo Likud. 

Uma nova eleição em meio à crise causaria ainda mais gastos públicos e, claro, ainda mais desgaste. É um ciclo que só se interromperá com a o fim da pandemia e com a retomada do crescimento econômico. Não são problemas triviais. E, também, por mais que Netanyahu tenha construído um ambiente de sucesso em Israel - com pleno emprego, crescimento e segurança -, os desafios atuais lhe são desconhecidos. 

O foco de Netanyahu é interromper essas duas crises o quanto antes. Ou ao menos estancar as feridas. Em meio a tudo isso, quem é parte do governo está perdendo feio. O Yesh Atid, do ex-companheiro de chapa de Gantz, o jornalista Yair Lapid, conquistaria 16 assentos, passando a representar a segunda maior bancada e a principal força de oposição a Netanyahu. A Lista Árabe Unificada permaneceria com 15 cadeiras, em terceiro lugar. 

A surpresa é a quarta posição. Se a pesquisa se confirmasse na prática numa eventual nova eleição, o ex-ministro da Defesa Naftali Bennett, do Yamina, quase que triplicaria a quantidade de cadeiras no Knesset. Atualmente, a aliança que lidera tem cinco assentos. De acordo com este levantamento recente, poderia chegar a 14, aumentando a influência de Bennett. O ex-ministro da Defesa chegou inclusive a ser cotado como um possível sucessor de Netanyahu, mas perdeu força e influência, em especial durante o último ciclo de negociações que resultou na formação da frágil coalizão de governo atual. Aliás, Bennett foi visionário em relação a isso ao optar pela oposição. 

Bennett é um dos principais símbolos da direita ideológica nacionalista e hoje está numa das posições políticas mais confortáveis do país: a da oposição que faz questão de apontar cada erro cometido por uma coalizão que, para ser bem franco, optou por desprezá-lo durante o processo de negociação que se seguiu às eleições de março passado. Se o governo cair ou for desfeito em função de todos os muito fatores de instabilidade e desarmonia, Bennett volta a ser uma força importante e certamente estaria na coalizão do próximo governo ocupando a titularidade de alguma das pastas mais fortes, talvez até novamente a da Defesa.