Em Israel, novas eleições em novembro se tornam cada vez mais prováveis

23 de Julho de 2020
Por Henry Galsky, de Israel O jornalista do Haaretz Chaim Levinson publicou nesta quinta-feira que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu realmente pretende provocar novas eleições em Israel. A nova rodada eleitoral seria realizada em 18 de novembro deste ano, portanto pouco mais de oito meses após o pleito de março e somente seis meses depois de a coalizão entre Netanyahu e Benny Gantz assumir o governo. Como se sabe e como tenho escrito com frequência por aqui, a união entre os dois é frágil, e as tensões têm se tornado cada vez maiores e indisfarçáveis. 

Na abertura deste texto eu usei a expressão "provocar novas eleições em Israel". Há uma razão para isso; para além de toda a tensão entre o primeiro-ministro e seu vice, há uma questão prática que pode - e provavelmente vai - derrubar a coalizão: o orçamento do país. Ou seja, caso não haja aprovação do orçamento até o final de agosto, haverá novas eleições. E a questão orçamentária representa mais um ponto de atrito entre Netanyahu e Gantz. 

Netanyahu vai contra o combinado pelo acordo de coalizão - que estipula aprovação do orçamento para um período de dois anos. O primeiro-ministro argumenta que, apesar do combinado, o momento de incertezas deveria levar a uma mudança no acordo, aprovando, portanto, orçamento restrito ao período de um ano apenas. Mas está claro que este ponto representa tão somente uma justificativa mais ou menos aceitável para derrubar o governo, livrar-se de Gantz e de sua turma e levar o eleitorado às urnas novamente. 

Há aspectos que estão claros desde o início dessa história: Gantz se viu numa sinuca-de-bico depois de se fortalecer politicamente durante as três eleições e chegar inclusive a ter o direito de tentar formar uma coalizão de governo. E não conseguir. O impasse levou-o a aliar-se a seu principal adversário de modo a acabar com a disputa neste tempo de pandemia. Gantz dizia - e continua a dizer - que seria irresponsável de sua parte inviabilizar um acordo durante momento tão grave. 

As pesquisas recentes mostram que os eleitores parecem não ter a mesma interpretação. Principalmente porque, além dos ataques que sofre internamente no governo todos os dias, o atual vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa convive também com as acusações de seus antigos parceiros da chapa original Azul e Branco (em especial de Yair Lapid, líder da oposição ao governo e do partido Yesh Atid). Tudo isso resultou no enfraquecimento de Gantz, conforme as sucessivas pesquisas eleitorais. Apresentei seus resultados por aqui em meu último texto. 

Mas, além de se ver livre de Gantz e da turma do Azul e Branco com a qual tem de conviver no governo, Benjamin Netanyahu tem outra razão para buscar uma nova eleição: na semana passada, a Corte Distrital de Jerusalém determinou que a fase testemunhal do julgamento do primeiro-ministro deverá começar em janeiro do ano que vem. 

A previsão é que as testemunhas sejam ouvidas em sessões que irão ocorrer três vezes por semana. Netanyahu e seus aliados temem que essa decisão e o processo jurídico permitam o envio de petições às instâncias superiores de Justiça demandando que o próprio Netanyahu seja impedido de exercer o cargo de primeiro-ministro enquanto estiver em julgamento. 

Ou seja, para resumir essa história, é claro que novas eleições são ruins. Mas, pelo olhar de Netanyahu, esta é a forma de antecipar o nó-tático que poderia estar a caminho a partir de janeiro de 2021. 

Lembrando sempre o que escrevi na semana passada: a avaliação do governo é ruim (75% dos entrevistados ouvidos pelo Israel Democracy Institute fazem comentários negativos sobre o gerenciamento da crise) e as pesquisas também apontam o Likud, partido de Netanyahu, perdendo cadeiras no Knesset, o parlamento israelense. Mas, ainda assim, é provável que Netanyahu consiga formar uma nova coalizão, mesmo que para isso tenha de dar poder a um de seus principais adversários internos no campo da direita - o ex-ministro da Defesa Naftali Bennett. É a velha lógica de perder os anéis para conservar os dedos.