Israel impede ação do Hezbollah; grupo libanês diz que ainda prepara ação contra o país

28 de Julho de 2020
Por Henry Galsky, de Israel Nesta segunda-feira, Israel atuou de forma a impedir a infiltração de membros do Hezbollah no norte do país. De acordo com as Forças de Defesa de Israel (IDF), os soldados abriram fogo contra o grupo que chegou a cruzar alguns metros da fronteira para o interior do território israelense. Não houve feridos. Mas há significados importantes neste episódio. 

A ideia do Hezbollah é realizar alguma ação contra Israel em resposta ao ataque a posições militares na Síria que deixou cinco mortos entre membros de milícias de forças pró-Irã e também um agente do Hezbollah - que não era o alvo prioritário da operação. Aliás, apesar de Israel trabalhar de forma a impedir o estabelecimento de bases iranianas na Síria e a transferência de armamento e tecnologia ao Hezbollah, o governo de Israel não se pronuncia sobre as ações e, portanto, não reconhece nem nega a autoria deste e de outros ataques. 

No entanto, de forma a manter o status-quo, Jerusalém teria enviado, por meio das Nações Unidas, uma mensagem ao Hezbollah de forma a deixar claro que a intenção do ataque realizado na Síria (o que deixou cinco mortos entre forças pró-iranianas) não era a de eliminar o membro do grupo libanês. A informação quanto ao envio da mensagem foi confirmada por Naim Qassem, vice-secretário-geral do Hezbollah, ao canal de televisão Al Mayadeen, veículo favorável ao grupo. 

Curiosamente, foi esse mesmo canal de televisão que, logo após a aproximação frustrada na fronteira e a consequente abordagem israelense, publicou relato de que o Hezbollah teria atingido um veículo de Israel com um míssil guiado Kornet. Israel não apenas negou o relato, como também confirmou não ter atingido nenhum dos membros do grupo durante a retaliação. Essas versões dos dois lados têm desdobramentos teóricos e práticos. 

Na teoria, o fato de Israel não ter atingido nenhum dos membros do Hezbollah - lembrando que a tentativa de infiltração teria ocorrido às 15h, portanto reduzindo as possibilidades de que os membros do grupo não fossem vistos - pode dar a entender que os israelenses quiseram apenas impedir a invasão ao território, mas reduzir as possibilidades de novas rodadas de enfrentamento. Até porque, caso houvesse novas baixas em suas fileiras, aí sim o Hezbollah poderia se sentir ainda mais impelido a buscar o confronto. 

Na prática, talvez o grupo terrorista libanês buscasse, por meio da divulgação do lançamento de um míssil a um veículo de Israel, transformar esta narrativa na resposta à morte de seu agente na Síria, na semana anterior - o que poderia ter encerrado o ciclo de ataques e contra-ataques por ora. Mas os israelenses não entenderam desta forma. Tanto que houve pronunciamento firme e conjunto do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e do vice (e ministro da Defesa) Benny Gantz. Apesar de eles mesmos estarem em permanente disputa política (como tenho explicado por aqui), ambos se pronunciaram lado a lado e de forma assertiva, mandando uma mensagem clara ao Hezbollah de que Israel não irá tolerar provocações. 

Ao mesmo tempo, o simples fato de Israel ter buscado enviar uma mensagem ao Hezbollah por meio da ONU já pode ser tratado pelo grupo como uma espécie de "reconhecimento" de seu poder pela maior potência militar da região. Não se sabe o que a milícia xiita vai fazer com isso. Neste momento, pode buscar um ataque limitado e, simultaneamente, maximizar os ganhos de imagem. É possível que Israel esteja atuando em duas frentes: domesticamente, o pronunciamento firme de modo a garantir a segurança de seus cidadãos; e, na arena internacional e na política de bastidores, talvez esteja em busca de arrefecer os ímpetos de seu principal adversário na fronteira norte. É uma das possibilidades. 

Seja como for, a bola está com o Hezbollah. A depender das dimensões de seu projeto de ataque, é provável que Israel dê por encerrada esta rodada. Até porque uma guerra aberta neste momento não interessa a ninguém. Mas tudo depende da decisão do Hezbollah.