Explosão em Beirute, crise no Líbano e o momento de indefinição do Hezbollah

04 de Agosto de 2020
Por Henry Galsky A explosão ocorrida nesta terça-feira em Beirute pode acrescentar novos elementos na análise sobre a possível escalada de enfrentamentos entre Israel e o Hezbollah. Por isso, é preciso fazer algumas ponderações; a primeira delas diz respeito à situação atual do Líbano, base de operações do grupo terrorista que hoje representa não apenas a principal força militar do país, mas também é parte do tecido sócio-político libanês. 

O primeiro-ministro Hassan Diab conseguiu formar um governo composto por tecnocratas, como a população exigia em manifestações nas ruas. Este é um lado da história. O outro é que, apesar de uma formação técnica, o braço político do Hezbollah é a principal força na coalizão de governo. Neste momento de desafios inéditos a todos os países, cabe ao Hezbollah encontrar as saídas que a sociedade libanesa demanda. 

Em 18 de junho deste ano, escrevi um texto por aqui apresentando alguns dos grandes problemas atuais do Líbano (agravados pela pandemia, naturalmente): desvalorização monetária recorde, queda do poder de compra, aumento da pobreza. O crescimento econômico tem sido inferior a 1% ao ano nos últimos cinco anos. A pandemia chegou e, diante deste cenário, acentuou a destruição. 

Neste momento, um terço de toda a população economicamente ativa (PEA) está desempregada. De acordo com o Financial Times, as perdas acumuladas pelo Banco Central, o "Banque du Liban", chegaram a 49 bilhões de dólares, valor equivalente a 91% da produção econômica do país no ano passado - segundo o FT, quase a mesma quantia dos depósitos mantidos pelos bancos comerciais no Banco Central, deixando-o, portanto, praticamente sem recursos para dirigir a economia. Sem a menor dúvida, é uma situação muito grave. 

Diante disso, as decisões militares do Hezbollah são muito importantes. Uma guerra aberta contra Israel já representaria um risco enorme ao país em condições normais. Por mais que em 2006, no conflito que ficou conhecido como a Segunda Guerra do Líbano, o grupo terrorista tenha esticado os enfrentamentos com Israel por 34 dias (o que contribuiu na construção de sua reputação regional), as perdas foram muito significativas. 

A guerra foi resultado de uma escalada iniciada a partir de um evento conduzido pelo Hezbollah: em 12 de julho de 2006, o grupo lançou uma enxurrada de mísseis e foguetes sobre o norte de Israel. Ao mesmo tempo, usando o lançamento de mísseis como distração, membros da milícia xiita entraram em território israelense, atacando uma patrulha do exército, tirando a vida de três soldados, ferindo mais três e sequestrando outros dois. Na sequência, um tanque israelense envolvido na busca pelos autores do ataque foi atingido por uma mina terrestre, causando a morte de mais quatro soldados de Israel. Mais tarde, outro soldado que buscava resgatar os corpos da equipe que morreu no episódio do tanque também foi morto. 

Ao longo desses 34 dias de enfrentamento, o Líbano também pagou um preço alto: 1,2 mil libaneses morreram durante a guerra; a economia, cujas projeções daquele ano de 2006 indicavam que poderia crescer de 5% a 6%, acabou por encolher 5%. O impacto estimado em infraestrutura danificada foi de 2,8 bilhões de dólares. O Hezbollah empurrou o país para a guerra de forma a se transformar na principal força não-estatal da região. Mas os dados acima mostram que o custo pago pelos libanses foi muito alto, sem nenhuma dúvida. 

A posição oficial e pública de Israel é que, num eventual confronto, o Líbano iria pagar essa conta novamente. A comunicação israelense é clara e direcionada ao público libanês também. Como apoiar o esforço de guerra do grupo quando já se sabe o custo altíssimo que certamente um novo conflito vai causar? Este é o ponto central das explicações que o próprio Hezbollah deve à sociedade libanesa. Para ser muito claro, o confronto tampouco interessa a Israel - que também se vê diante de dilemas e demandas por solução de seus próprios problemas internos. 

No meu último texto, apresentei um cenário de três possibilidades que a milícia xiita libanesa elegeria a partir da situação de crise em que o Líbano se encontra. Uma das opções - considerando a incapacidade do grupo terrorista de resolver as questões demandadas pela população - seria o retorno às ações militares. Talvez esta seja a grande dúvida que hoje paira sobre as suas lideranças. Por mais que tenha se envolvido na política, por mais que tenha atividades de assistência social, o Hezbollah é uma organização militar terrorista. E uma zebra nunca perde as suas listras. Mesmo que, em função disso, novamente todos os libaneses precisem pagar o preço.