Tragédia no Líbano: irresponsabilidades das autoridades de lá e dos especialistas daqui

12 de Agosto de 2020
Por Henry Galsky A busca por respostas rápidas e diagnósticos sobre a explosão no Líbano provocou uma enxurrada de especulações que, até o momento, não se confirmaram. Apesar do andar das investigações e da abordagem das próprias autoridades libanesas, houve quem usasse a janela para imputar culpa e autoria sem qualquer traço de evidência. E aqui me refiro especificamente à sucessão de especialistas e professores que rapidamente foram convocados a comentar o ocorrido. 

A rapidez com que alguns culparam Israel é inversamente proporcional à responsabilidade que professores deveriam ter. E me refiro aos professores porque, assistindo à grande imprensa brasileira, foram eles - muito mais do que os jornalistas - que partiram para as acusações. Deixando claro que, num momento pós-ataque (ainda mais em tal proporção), todas as possibilidades devem - ou deveriam, no caso - ser consideradas. Mas o foco de boa parte dos professores era apenas um. 

Relato essa situação porque ela permite, de forma determinante, apresentar uma reflexão importante: os jornalistas têm o dever de esperar. O que quer dizer, nesta situação, o processo de busca pela verdade, não as elucubrações. E essa busca, na maior parte das vezes, exige paciência. Há bons e maus profissionais em todas as áreas. Mas, ao contrário dos jornalistas, muitos professores de Relações Internacionais e História do Oriente Médio se sentiram impelidos a apresentar certezas. Os jornalistas jamais podem seguir por este caminho. 

As investigações revelam na origem desta tragédia uma sucessão de fracassos, incompetências e negligências de diversas autoridades do Líbano que armazenaram um produto de alto potencial explosivo por longos sete anos sem o devido cuidado. A verdade é que, mesmo ao longo da segunda-feira fatídica em que esse incidente ocorreu, já havia indícios que precisavam ser mais considerados do que de fato foram: por exemplo, a oferta de ajuda humanitária por parte de Israel - dado importante porque não há na história do Estado judeu paralelo de uma rápida negativa de envolvimento e oferta de auxílio a um país que tivesse sido atacado por Israel. 

O fato de as autoridades israelenses correrem para oferecer assistência ao Líbano deveria ter sido examinado para além das questões pessoais dos comentaristas (especialmente dos professores) como elemento de interesse. Por exemplo, deveriam ter buscado se isso já havia ocorrido anteriormente. 

E aqui há o ponto de apuração jornalística importante: é preciso ter repertório e curiosidade em realizar a busca por esta informação. Por que razão isso não foi feito é algo que os veículos precisam - ou deveriam - questionar internamente, inclusive em relação aos critérios de convocação de seus convidados. 

Novamente, vale deixar claro que não se trata de excluir a possibilidade de envolvimento israelense - apesar da pronta negação tanto por parte de Israel, como também por parte das próprias autoridades libanesas, inclusive do Hezbollah. Mas o fato de não haver postura similar no passado por parte de Israel é um elemento importante que não poderia ter sido ignorado, caso o interesse fosse mesmo o de construir uma análise mais aprofundada. 

É claro que a relevância do assunto, da região, e a necessidade de conteúdo e grande velocidade dos elementos pode explicar, parcialmente, as conclusões rápidas baseadas em nenhum fato. Mas esta é a diferença da irresponsabilidade de alguns e do profissionalismo e competência de tantos outros. E, por falar nisso, é importante deixar claro que o bom Jornalismo não é verificado a partir da velocidade de respostas. Mas da precisão de informações. E da capacidade de se fazer boas perguntas.