Como o acordo entre Emirados Árabes e Israel chega no momento certo aos três atores envolvidos

13 de Agosto de 2020
Por Henry Galsky, de Israel O anúncio do acordo entre Israel e os Emirados Árabes Unidos (EAU) é aquele tipo de negociação rara onde todas as partes ganham. Israel, evidentemente, abre mais uma frente entre os países árabes - depois de acordos com Egito e Jordânia - os EUA voltam a mediar um tratado entre seus aliados regionais e os EAU iniciam um processo de normalização com os israelenses que já desejavam há tempos. 

Se os movimentos parecem óbvios, é preciso lembrar os riscos que cada um dos líderes procura tirar do caminho: Benjamin Netanyahu busca aplacar o ímpeto de seus opositores com um gesto que é basicamente consensual a esses grupos - nem a esquerda, nem o centro irão se opôr a um acordo com um país árabe. O problema de Bibi desta vez não é com a oposição, mas com seus aliados. 

Vocês devem estar lembrados da sequência de textos que escrevi sobre o projeto de anexação de ao menos 30% da Cisjordânia/Judeia e Samária, território reivindicado integralmente pelos palestinos e imaginado como tal em todos os processos de paz desde os Acordos de Oslo de 1993/94. Os assentamentos judaicos deste território são a principal força no caminho desta lógica. Seus moradores normalmente votam em Netanyahu ou em partidos que compõem sua aliança governamental, lembrando sempre da estrutura política parlamentarista de Israel onde é preciso alcançar um bloco de ao menos 61 membros numa coalizão para formar um governo. 

Netanyahu prometeu a anexação, conforme permitia o chamado Acordo do Século divulgado por Donald Trump em janeiro, e finalmente conseguiu formar um governo depois de três eleições - mesmo que não seja o formato ideal de coalizão, uma vez que precisou unir-se a Benny Gantz, seu principal opositor ao longo deste um ano de impasse. Netanyahu sempre soube que colocar em prática o projeto de anexação traria inúmeros problemas e ameaças a Israel, o que se tornaria ainda mais problemático num momento como este que todos estamos vivendo. 

A perspectiva de abandonar o discurso de anexação em troca de nada soaria como traição às forças políticas representantes dos judeus que vivem em assentamentos na Cisjordânia/Judeia e Samária. O acordo com os EAU funciona como uma espécie de saída honrosa, uma vez que vem sendo divulgado um suposto compromisso dos israelenses de, em troca da normalização das relações entre os dois países, abrirem mão do projeto. Bibi tem um enorme ganho a apresentar à sociedade israelense. 

E, com razão, vai valorizar o acordo - o primeiro que ele, depois de 11 anos na liderança do país, irá assinar. Bibi inclui também mais um fato histórico em sua biografia como liderança do país, ao mesmo tempo em que procura mudar sua imagem pessoal no exterior. Em seu discurso, comparou-se a seus antecessores que também empreenderam acordos com países árabes: Menachem Begin (que assinou o tratado com o Egito) e Yitzhak Rabin (que assinou o acordo com a Jordânia). 

Mas há uma diferença sutil entre esses dois acordos e este revelado por Netanyahu: ao contrário de Egito e Jordânia, os EAU não estavam em guerra com Israel. Ou seja, não se trata formalmente de um acordo de paz, mas de um esquema de reconhecimento mútuo e estabelecimento de relações diplomáticas plenas entre os dois países. Esta observação que faço trata-se apenas de uma explicação técnica e certamente não diminui em nada o tamanho do acordo. 

Agora, sob o ponto de vista dos EAU, vale dizer que, apesar de grandioso, o anúncio não é exatamente uma surpresa, uma vez que veio de onde se imaginava. Como monarquia do Golfo, as autoridades de Abu Dhabi sentem-se diretamente ameaçadas - existencialmente, inclusive, importante lembrar - pelo projeto de expansão e construção de hegemonia regional do Irã. As monarquias do Golfo dividem esta preocupação com Israel. O anúncio do acordo consolida esta visão de que todos esses atores (as monarquias do Golfo e Israel) compartilham de um temor maior do que suas desconfianças mútuas. Portanto, o estabelecimento de relações é um caminho de contenção - imagina-se - dessas aspirações iranianas. 

E aqui vale frisar como Netanyahu conseguiu maximizar seus ganhos políticos. Ao reforçar as intenções de anexar 30% da Cisjordânia/Judeia e Samária, na verdade ele conseguiu criar uma janela de oportunidade aos países do Golfo. Os EAU parecem ter entendido o recado e, a partir disso, a aproximação com os israelenses também já estaria justificada aos palestinos. Vale observar o comunicado oficial redigido por Anwar Gargash, ministro das Relações Exteriores do país:

"Uma ligação histórica entre sua alteza, o xeque Mohammed bin Zayed Al Nahyan, o presidente dos EUA e o primeiro-ministro israelense. A decisão de Israel de congelar a anexação dos territórios palestinos representa uma grande conquista para o futuro da região, de seu povo e do mundo". 

"Numa iniciativa corajosa, os EAU estão empregando a decisão de normalizar relações com Israel de forma a preservar as possibilidades de uma solução baseada (na lógica) de dois estados e convoca palestinos e israelenses a retomar as negociações". 

Ou seja, Gargash justifica a aproximação com os israelenses como uma espécie de "sacrifício necessário" de modo a impedir o prosseguimento do projeto de anexação. 

Benjamin Netanyahu conseguiu obter o reconhecimento formal e o estabelecimento de relações plenas (inclusive com previsão de abertura de embaixadas e voos diretos entre os países) baseado tão somente numa promessa jamais cumprida. Ele nunca chegou a declarar soberania sobre a Cisjordânia/Judeia e Samária. Apenas disse que iria fazê-lo. E conseguiu, com isso, o terceiro acordo com um país árabe na história do Estado judeu. 

E, por fim, há também o aspecto do governo norte-americano. Donald Trump pode se orgulhar de, ao contrário de seu antecessor, ter mediado um acordo bem-sucedido entre Israel e um país árabe. Em meio a tantas notícias ruins nos EUA e a uma corrida eleitoral que se mostra a cada dia mais complicada a Trump, o anúncio de um acordo como este pode render no mínimo alguma cobertura positiva por parte da imprensa. Ao mesmo tempo em que apresenta com fatos - e não percepções - o perfil negociador do presidente. No Oriente Médio, um dos palcos mais relevante das Relações Internacionais (se não for o mais importante), Trump tem agora um acordo para chamar de seu.