A dor de cabeça de Netanyahu

28 de Agosto de 2020
Por Henry Galsky, de Israel Os números têm mudado em Israel e a balança política varia de acordo com muitos fatores. Uma parte importante dos novos resultados está profundamente conectada também às oscilações da gestão do vírus e de seus muitos desdobramentos nas áreas de saúde e economia. Nunca é demais lembrar que este governo de coalizão entre adversários nasceu para conter a crise sanitária, mas também política. Num cenário de indefinição, a instável união entre Benjamin Netanyahu e Benny Gantz soava como uma vacina contra a realização de um quarto processo eleitoral, mas aparentemente não foi capaz de apresentar imunização plena. 

Há poucos dias, como escrevi, foi necessária uma grande articulação política de modo a evitar novas eleições em novembro. Mesmo assim, o remédio não é definitivo e daqui a pouco mais de cem dias o orçamento deste ano precisará, enfim, de uma definição. Evitar levar a população novamente às urnas parece ser também uma maneira de estancar a crise que se prolifera mesmo na alta esfera do jogo político. Os cabeças deste governo - o primeiro-ministro Netanyahu e seu vice e ministro da Defesa Gantz - têm sido incapazes de evitar perda de popularidade. Este é um dado muito perceptível e ninguém do governo quer pagar para ver o que pode acontecer numa nova rodada eleitoral. 

O Likud, sob a liderança de Netanyahu, apresenta queda a cada nova pesquisa; o Azul e Branco, de Gantz, perdeu a força que parecia ter e que quase foi capaz de destronar o primeiro-ministro. Não é mais o caso. A inglória união de ambos hoje existe porque eles sabem que é preciso reverter - se é que isso é possível - a situação diante do eleitorado antes de buscar caminhos e alianças num novo pleito. 

Pesquisa do jornal Maariv deixa tudo isso muito evidente. Abaixo, listo os resultados publicados no dia 27 de agosto. Em parênteses, o número de cadeiras que cada partido recebeu nas últimas alianças e que, hoje, representa a distribuição de forças no Knesset, o parlamento israelense - lembrando sempre que o total é de 120 cadeiras. 

Likud - 28 (36)
Yesh Atid-Telem - 20 (16)
Yamina - 17 (5)
Lista Árabe Unificada - 14 (15)
Azul e Branco - 10 (15)
Yisrael Beitenu - 9 (7)
Shas - 8 (9)
Judaísmo Unido da Torá - 7 (7)
Meretz -  7 (3)

Este é um mapa do momento bastante interessante. Nele, é possível notar que as duas principais lideranças políticas que se enfrentaram ao longo de três rodadas eleitorais em menos de um ano se enfraqueceram. Somados, caso houvesse nova votação e a pesquisa se confirmasse, Likud e Azul e Branco perderiam 13 cadeiras. 

Há também o fortalecimento de dois dos mais vocais opositores a este governo: o Yesh Atid-Telem, de Yair Lapid, jornalista que concorreu na aliança original Azul e Branco ao lado de Gantz de forma a derrotar Netanyahu, e Naftali Bennett, ex-ministro da Defesa no governo anterior - cujo primeiro-ministro era o próprio Netanyahu -, mas cuja trajetória deixa claro que tem a intenção de se firmar como uma nova liderança da direita nacionalista. Já escrevi bastante sobre Bennett por aqui, uma personalidade política relativamente jovem e que surge no cenário israelense na sequência da Segunda Guerra do Líbano, confronto travado entre Israel e o Hezbollah durante 34 dias em 2006. 

Neste momento, há um clima de imprevisibilidade política. Isso porque, agravado pela crise e pelas manifestações populares contra o primeiro-ministro, o ambiente  propiciou críticas ainda mais contundentes sobre a gestão de Netanyahu. Curiosamente, essas críticas são capitaneadas por dois políticos de direita (Lapid e Bennett - Bennett certamente mais à direita que Lapid). Bennett chegou inclusive a apresentar um plano alternativo de gestão em tempos de pandemia e tem percorrido o país de forma a encontrar as pessoas que perderam suas fontes de renda, em especial os donos dos pequenos negócios, setor mais atingido pela crise. 

Por isso, para finalizar, mesmo a prática da imprensa israelense de dividir o cenário em três blocos (direita, esquerda e Lista Árabe Unificada, e Avidgor Lieberman) precisou mudar. Agora são quatro blocos; centro, esquerda e árabes, com 51 mandatos; Likud e ortodoxos, 43; Yamina, 17; Yisrael Beitenu, 9. 

O partido Yamina, de Bennett, não garante indicação a Netanyahu, no caso de novas eleições. Lembrando que, para além da votação, após o resultado oficial os partidos se reúnem com o presidente Reuven Rivlin e recomendam a ele quem deve ter o direito de buscar a formação do governo. Rivlin faz o papel de mediador e, analisando o resultado, decide qual liderança partidária tem melhores condições de obter sucesso na formação do novo governo. 

Os resultados que as sucessivas pesquisas tem apresentado - e a atuação da oposição - representam também um enorme desafio ao processo de formação do próximo governo (caso, naturalmente, o impasse orçamentário prossiga e o Knesset seja dissolvido). É possível imaginar novas configurações e alianças, como entre Lapid e Bennett, por exemplo. 

Ainda é difícil ter segurança suficiente para apostar em novas lideranças, mas sem a menor dúvida esses dois estão fazendo um trabalho que tem sido avaliado positivamente por parcela importante da população. No caso de Bennett, mesmo que seu partido acabasse por juntar-se a Netanyahu, ele entraria no governo com força maior a ponto de pleitear mais influência e certamente ganharia uma pasta mais relevante, talvez até retomando a titularidade da Defesa, por exemplo. O resultado a Netanyahu seria amargo, uma vez que Bennett pretende sucedê-lo e tem tempo, paciência e habilidade política para isso. 

Diante disso tudo, a postergação das discussões orçamentárias foi positiva à coalizão. Para Netanyahu, a dor de cabeça de ter Gantz como parte do governo ainda é menos problemática do que arrastar o país para novas eleições. O foco do primeiro-ministro, além das investigações em curso contra ele, está em novembro de 2021, quando, segundo acertado no acordo de coalizão, ele deverá dar lugar a Benny Gantz e passar a vice e ministro da Defesa. É improvável que Netanyahu siga com o combinado sem tentar alguma manobra política. Mesmo que isso signifique a realização de uma nova eleição no ano que vem.