Os acordos assinados entre Israel, Emirados Árabes e Bahrein sob a perspectiva do contexto regional

15 de Setembro de 2020
Por Henry Galsky, de Israel Talvez tecnicamente os acordos entre Israel, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Bahrein não sejam tratados de paz, como muita gente tem dito. Aliás, eu mesmo estabeleci esta diferenciação quando abordei o assunto por aqui. No entanto, vale dizer que, sim, os acordos solidificam novos pilares para a paz. Ao contrário dos acordos assinados entre Israel e Egito (1978/1979) e Israel e Jordânia (1994), o entendimento entre os três atores deste momento não vem acompanhado de um histórico de guerras. 

Bahrein e EAU não estavam em estado formal de guerra contra Israel - ao contrário de Líbano e Síria, por exemplo, dois países com registro de enfrentamentos militares com os israelenses e que formalmente se mantêm em guerra com o Estado judeu. Ao menos no papel, claro. Não há no horizonte perspectiva de um enfrentamento aberto entre essas forças militares - e aqui não incluo o Hezbollah, uma história paralela aos conflitos regionais entre esses estados nacionais. 

Mas EAU e Bahrein dão um passo importante que vai além, muito além, de todas as possibilidades econômicas e de cooperação em diversas áreas entre os três países. Também é importante lembrar que, ao contrário dos acordos com Egito e Jordânia, o propósito deste novo capítulo de entendimento com as duas monarquias do Golfo não se traduz apenas como garantia de interrupção de futuros combates militares entre os três. Não havia tampouco qualquer análise a concluir que Israel, EAU e Bahrein pudessem em algum ponto futuro enfrentar-se no campo de batalha. Na verdade, a análise sempre foi oposta. EAU, Israel e Bahrein já mantinham de forma mais ou menos aberta contatos e cooperação de muitas formas. 

O ponto fundamental é que esses três atores regionais estão alinhados em função do principal ponto de instabilidade regional: o conflito entre os chamados eixos sunita e xiita, assunto que abordo por aqui já há muitos anos. Sim, este é o fator mais relevante de insegurança geopolítica do Oriente Médio. Certamente o conflito entre israelenses e palestinos é o mais midiático, o maior lugar-comum da política internacional. Mas não é o mais letal e nem o que mais ameaça a paz regional, de forma alguma. 

O conflito entre israelenses e palestinos pode ser complexo, mas também apresenta elementos da disputa entre esses dois eixos. Importante dizer que a distinção religiosa conceitual entre o islamismo sunita e xiita se transformou em rivalidade sectária e em ponto de atrito e oposição regional. As monarquias sunitas do Golfo têm a dimensão deste conflito de maneira muito clara e a aliança com Israel que ora se consolida é mais um item desta leitura. O principal fiador da aproximação entre essas monarquias e os israelenses é o projeto de expansão e hegemonia do ator xiita e não-árabe mais importante e ameaçador do Oriente Médio: o Irã. 

Já tratei das intenções e do alcance da política externa iraniana inúmeras vezes, mas considero fundamental retomar este assunto na abordagem dos acordos entre Israel e seus novos e agora formais aliados sunitas: todos os três atores envolvidos compreendem o projeto iraniano como oposição a seu próprio. Ou seja, Israel é a face mais evidente do interesse do Irã, que não deixa margem de dúvida a quem quiser ouvir de que Israel não cabe na forma como enxerga o Oriente Médio. 

Para deixar ainda mais claro: não é que os iranianos estejam interessados na criação de um estado palestino, mas o fato é que em qualquer desenho que Teerã imagina o Estado judeu deixaria de existir. As autoridades iranianas falam sobre isso abertamente sempre que têm oportunidade. O verniz e a tradução de forma a minimizar as intenções do país ficam na conta do Ocidente - a verdade é que os iranianos nem se dão ao trabalho. De qualquer forma, sob o ponto de vista israelense, como nenhum estado nacional admitirá a possibilidade de suicídio, a rivalidade entre Israel e o Irã está posta. 

O mesmo se aplica às monarquias sunitas do Golfo. Elas igualmente interpretam o projeto iraniano como ameaça existencial. A revolução islâmica do Irã é um modelo que Teerã pretende exportar regionalmente. E, claro, as monarquias do Golfo estão na mira. 

Portanto, este inimigo em comum tratou de ser, de forma involuntária, evidentemente, um fator de aproximação. Os demais itens deste pacote - cooperação tecnológica, médica, potencial de turismo etc - vieram a reboque.

No próximo texto, a perspectiva das relações regionais dos palestinos - e de Israel com os palestinos - a partir da assinatura dos acordos.