Acordos entre Israel e países árabes expõem a razão real do impasse com os palestinos

05 de Outubro de 2020
Por Henry Galsky, de Israel Prometi há algumas semanas um texto sobre a posição dos palestinos a partir das assinaturas dos acordos de normalização de relações entre Israel e seus dois novos aliados árabes: Emirados Árabes Unidos (EAU) e Bahrein. Não pude escrever esta análise antes porque estava de mudança. E aqui vai aos leitores uma informação de minha vida pessoal bastante relevante a este espaço em que escrevo: mudei-me para Israel, de onde, a partir de agora - ainda sem poder garantir a frequência - publicarei meus textos. Esta é uma boa notícia, sem nenhuma dúvida. 

Sobre a posição dos palestinos diante deste acordo, aqui vão alguns fatos relevantes: já se sabe que a parceria entre Israel, EAU e Bahrein foi condicionada à demanda estabelecida pelos dois países árabes de comprometimento por parte de Israel da suspensão por tempo indeterminado do plano de anexação de 30% da Judeia e Samária (Cisjordânia), inclusive dos assentamentos judaicos. 

Este compromisso assumido pelo governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu garante, em menos teoricamente, que uma solução acordada baseada em dois estados (Israel e o futuro estado palestino) permanece de pé. Esta é uma notícia que deveria ser celebrada pelas autoridades palestinas. Bahrein e EAU, portanto, contribuíram significamente para o propósito oficial palestino. Mas nem Autoridade Palestina (AP), governo oficial palestino responsável pelos territórios palestinos na Cisjordânia, nem o Hamas, grupo terrorista que em 2006 se apropriou da Faixa de Gaza e desde então é o governo de fato local, estão satisfeitos. Muito pelo contrário. 

Ambos condenaram os acordos assinados entre EAU, Bahrein e Israel. Ambos consideraram-se traídos pelos dois países árabes que normalizaram relações com Israel. Este ponto é muito importante para o entendimento do conflito entre israelenses e palestinos e para a compreensão das razões pelas quais ainda não há solução definitiva para o impasse entre essas partes. Existe, na prática, uma profunda incompreensão internacional sobre os interesses palestinos. Na verdade, há uma interpretação de fora para dentro sobre como os palestinos imaginam uma solução. 

A interpretação de parte da comunidade internacional é de que o conflito existe porque Israel impede que os palestinos realizem a sua autodeterminação, um direito garantido a todos os povos. Há uma explicação de fora para dentro de que o conflito só existe em função dos assentamentos judaicos - de que Israel teria a chave para a resolução: a interrupção dos assentamentos, a retirada dos judeus que vivem neste território, a demarcação de uma fronteira justa ao longo das linhas estabelecidas após a Guerra dos Seis Dias, de 1967, a divisão de Jerusalém etc. Estas são, mais ou menos, as visões internacionais sobre o conflito. 

Bom, não é isso. Ou melhor, assim os palestinos se comunicam em entidades internacionais, inclusive esta é a base dos Acordos de Oslo, assinados com Israel em 1993/1994. 

Mas este não é o ponto na prática. A insatisfação com os chamados Acordos de Abraão (estes assinados com EAU e Bahrein) deixa muito claro que o problema é maior. A Autoridade Palestina e o Hamas se uniram na condenação a dois países árabes que reconheceram simplesmente um fato da realidade: Israel existe e não é um estado transitório, um país que o tempo, guerras, terrorismo ou seja lá o que for irão apagar do mapa. Vale dizer que este já foi o pensamento corrente entre os países árabes. Tanto que nas três grandes guerras com Israel parte dos países árabes tentou colocar em prática este objetivo. Isso não aconteceu. 

Quando as duas principais lideranças palestinas - mesmo inimigas entre si - se unem para condenar um acordo que teve como um de seus desdobramentos a garantia de que Israel não irá anexar a maior parte do território pretendido para a criação de um estado palestino, algo muito importante precisa ser observado, inclusive pelas entidades internacionais interessadas em mediar uma solução justa ao conflito entre israelenses e palestinos; valeria poscionamento mais claro sobre esta questão: a criação de um estado palestino é um objetivo justo; a negação da existência de Israel, não. 

A imagem que ilustra este texto deixa este posicionamento evidente. O cartaz que a manifestante exibe mostra o mapa de Israel envolto pelas cores da bandeira palestina. Mais claro impossível. 

A ideia de que o conflito israelense-palestino permanece em função de questões sobre território nunca esteve tão equivocada. Os extremismos de cada lado - representados pelos que negam o direito de existência do outro - deveriam ser condenados. O problema é que a assinatura dos Acordos de Abrãao deixa claro que esta é a posição dos governos palestinos - o oficial, da Autoridade Palestina, e do de fato, em Gaza, liderado pelo grupo terrorista Hamas. 

Do ponto de vista de Israel, mesmo com todas as críticas à coalizão de Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelense tomou uma medida prática que garante a sobrevivência da lógica de dois estados, a única que sustenta uma solução justa aos dois pleitos nacionais - palestino e israelense. A crítica palestina a acordos que simplesmente reconhecem a existência de Israel por dois estados árabes deixa claro a quem quiser entender que o problema é maior, muito maior, do que simplesmente uma disputa territorial - se este fosse o ponto, o conflito já teria sido resolvido há muito tempo.