Turquia estende seus braços até Nagorno-Karabakh

08 de Outubro de 2020
Por Henry Galsky, de Israel O momento atual é importante para se examinar o papel da Turquia, país que vem se afirmando cada vez mais como ator internacional relevante durante este período. Enquanto a maior parte dos países está envolvida com o combate à pandemia, Ankara constrói rede de relacionamentos e exércitos aliados ao redor do mundo, desde o norte da África, passando pelo o Oriente Médio e o o sul do Cáucaso. 

A política expansionista de busca por relevância, liderança, hegemonia e atuação militar está na agenda do presidente Recep Tayyip Erdogan. A ponto inclusive de buscar reforçar rivalidade até com seu par russo, Vladimir Putin. Em comum a ambos as manobras domésticas de forma a permanecerem em seus cargos por tempo indeterminado. Interessante que a série Years and Years - já mencionada por aqui - chega a classificar Putin como "president forever". Não é impossível. O ano de 2020 tem demonstrado claramente que certas distopias se tornam realidade muito mais rapidamente do que podemos imaginar.

O ponto é que os turcos têm agido de maneira muito particular. Inclusive financiando e arregimentando mercenários para defender seus interesses na Síria, na Líbia e em Negorno-Karabakh, a região do Cáucaso em disputa entre Azerbaijão e Armênia. 

Uso o termo "particular" porque não é exatamente comum a um membro da OTAN (a aliança militar ocidental) este tipo de manobra. Hoje, a Turquia é um ator internacional que estende seus braços e pretensões para arenas cada vez mais distantes de seu território. 

Tendo como base o combate permanente à autodeterminação dos curdos, os turcos moldam suas relações com vizinhos e sonham com o resgate de um imaginário Otomano. Para isso, o presidente Erdogan domesticamente conta com o apoio dos setores mais vinculados ao islamismo político numa contradição com os princípios que formaram a própria Turquia moderna - inclusive em oposição às forças armadas do país. 

Os exércitos que a Turquia têm financiado para lutar em seu nome nos diversos pontos de conflito lembram de certa maneira a atuação do Irã e seu apoio às milícias xiitas que sustenta por todo o Oriente Médio. Regionalmente, há grupos com essas características já estabelecidos, casos do Hamas, em Gaza (que hoje é o governo de fato), e o Hezbollah, no Líbano - milícia cujo papel na estrutura política, social, militar e econômica libanesa se concretizou ao longo do tempo a ponto de hoje ninguém apostar no desarmamento ou encerramento das atividades do grupo. 

Ou seja, estão claros os passos iniciais da Turquia na Síria, Líbia e na Armênia. Mas é impossível prever se é possível retroceder ou se - tal como os exemplos do Oriente Médio citados acima - esses grupos ganharão vida própria. E, mais ainda, quais serão os efeitos nesses três territórios. Lembrando que em dois dos três exemplos - Líbia e Síria - os estados nacionais são muito frágeis, característica que sempre facilita a reprodução de dinâmicas próprias e incontroláveis. Basta lembrar de Afeganistão e Somália, por exemplo, e a relação de ambos com Al-Qaeda e Al-Shabaab, respectivamente. 

Para finalizar, a Turquia age desta forma porque não recebe qualquer punição ou censura internacional. No caso de Nagorno-Karabakh, região que hoje é palco de mais um conflito aberto entre Azerbaijão e Armênia, o papel exercido por Ancara em apoio aos azeris é encarado com ainda mais temor por parte da população armênia em virtude da memória do massacre promovido pelos otomanos em 1915/16. Considerando que um dos pilares do atual governo turco é justamente o de valorizar a herança otomana, a apreensão dos armênios não é injustificada.