Relações entre EUA e Israel - perspectivas a partir da vitória de Joe Biden

09 de Novembro de 2020
Por Henry Galsky, de Israel A histórica conexão entre EUA e Israel é uma das parcerias mais importantes do cenário político internacional. É também, sem a menor dúvida, a mais relevante a Israel sob todos os aspectos; graças à aliança com os norte-americanos, os israelenses mantêm superioridade militar e tecnológica no Oriente Médio. Com vizinhança hostil, esta relação é, para Israel, o seu mais importante ativo.

Os EUA foram o primeiro país a reconhecer a independência de Israel logo após a sua proclamação, em 14 de maio de 1948. Dez dias depois, o então primeiro presidente israelense, Chaim Weizmann, encontrou-se com o seu par norte-americano, Harry Truman.

Hoje, a relação entre EUA e Israel é estratégica a ambos e inclui cooperação em exercícios militares conjuntos, desenvolvimento de armamento e três bilhões de dólares em financiamento militar revertidos anualmente de Washington a Jerusalém.

Além disso, por parte de Israel, os EUA representam seu maior parceiro comercial, comprando diamantes, produtos médicos e farmacêuticos, aeronaves civis, equipamentos de telecomunicação e semicondutores. Os dois países mantêm um acordo de livre comércio desde 1985.

Todos esses dados não deixam dúvida de como esta relação é importante para Israel. Mais ainda, até agora ela sempre esteve ancorada numa premissa política muito clara e compreendida aparentemente por todos os líderes israelenses: a política doméstica norte-americana e a divisão ideológica entre Republicanos e Democratas jamais poderia interferir nas relações com Israel. Ou seja, a aliança entre Washington e Jerusalém estaria a salvo da rotatividade natural da Casa Branca.

Numa época repleta de incertezas e revisionismos, até isso pode estar mudando. Apesar do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu repetir com firmeza que “Israel é um tema bipartidário” (ou seja, que a aliança com Israel independe do partido do presidente norte-americano), nos cinco últimos anos eventos decisivos podem ter dado início a um processo de alteração deste equilíbrio histórico.

Netanyahu é o primeiro-ministro mais longevo em toda a história de Israel. No cargo desde 2009 (em sua segunda passagem pelo cargo), já assistiu desde então a duas mudanças presidenciais nos EUA: Barack Obama (Democrata) e Donald Trump (Republicano). Durante todos esses anos, foi com Obama que manteve a pior relação. O ponto fundamental para entender esta situação é a abordagem do governo do então presidente Democrata ao programa nuclear iraniano. Netanyahu e Obama encaravam o tema de maneira completamente oposta: para Netanyahu, a maior ameaça à existência de Israel; para Obama, a principal oportunidade de obter uma grande virada estratégica no Oriente Médio e alcançar a sua maior conquista no campo internacional – uma das principais expectativas criadas pela candidatura do presidente norte-americano era a da construção de uma abordagem internacional distinta por parte dos EUA, a maior potência planetária.

No início de 2015, Netanyahu e a oposição Republicana ao presidente Obama coordenaram uma sessão conjunta no congresso norte-americano em que o primeiro-ministro israelense explicaria as razões pelas quais considerava o acordo – em negociação pelo governo dos EUA – uma ameaça a Israel. Na ocasião, a polêmica atingiu níveis sem precedentes na discussão das relações bilaterais entre Israel e EUA. A administração Obama interpretou o movimento conjunto entre Netanyahu e membros do Partido Republicano não apenas como um insulto, mas uma tentativa de enfraquecer a autoridade do presidente norte-americano na condução da política externa do país.

Apesar de todos os esforços para evitar a polêmica e reverter a decisão de Netanyahu de ir a Washington, o primeiro-ministro israelense seguiu adiante. A verdade é que o discurso foi um sucesso. Ao menos momentaneamente. E aqui vale apresentar alguns números interessantes: ao longo de 43 minutos, Netanyahu foi interrompido e aplaudido de pé pelos congressistas norte-americanos 26 vezes. Netanyahu citou o Irã 107 vezes. No entanto, há números que não favorecem o primeiro-ministro: o caso mais óbvio é que, apesar de ter ido à capital norte-americana e desgastado a relação com o então presidente norte-americano e com os 58 membros da Câmara e do Senado que não assistiram ao pronunciamento em protesto ao que consideraram uma interferência externa na condução da política internacional do país, o acordo nuclear com os iranianos foi assinado pouco mais de quatro meses depois, em 14 de julho de 2015.

Este episódio produziu um enorme estresse nas relações de Israel com os Democratas. E vale lembrar que um dos políticos norte-americanos que também preferiu não estar presente durante o discurso de Netanyahu foi o então vice-presidente Joe Biden. Pois é.

O troco oficial da administração Obama veio em dezembro de 2016, já com as eleições norte-americanas finalizadas e Donald Trump eleito para governar o país a partir de 20 de janeiro do ano seguinte. Numa decisão surpreendente, os EUA optaram por não exercer seu poder de veto e permitiram a aprovação de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU demandando “a completa e imediata interrupção de todas as atividades em assentamentos em território palestino ocupado, inclusive em Jerusalém Oriental”. Mesmo simbólica, a resolução deixava evidente o interesse do então governo norte-americano de marcar posição ao se despedir do mandato presidencial permitindo a aprovação de um texto crítico a Israel – naquele momento, a primeira vez que uma resolução com este viés era aprovada em quase 40 anos.

Em 20 de janeiro do ano seguinte, Donald Trump assumiu a Casa Branca. E Netanyahu emplacou uma aliança com o atual presidente dos EUA que não apenas marcaria a dissonância em relação a Obama, mas também reverteria décadas de tradição da política externa norte-americana: Trump reconheceu Jerusalém como capital israelense em dezembro de 2017; em 14 de maio de 2018 inaugurou a embaixada na cidade, numa data bastante simbólica porque marcava exatamente a comemoração de 70 anos da independência de Israel; o presidente norte-americano também reconheceu formalmente a soberania israelense nas Colinas de Golã (território reivindicado pela Síria), retirou os EUA do acordo sobre o programa nuclear iraniano – pressionando a República Islâmica com mais sanções -, apresentou o chamado Acordo do Século (plano de paz imediatamente rejeitado pelos palestinos) e abriu caminho para a assinatura de acordos de normalização e estabelecimento de vínculos diplomáticos com países com os quais Israel não mantinha qualquer relação: Bahrein, Emirados Árabes e Sudão. Trump garante que há novos tratados a caminho.

É improvável que a presidência norte-americana sob a administração de Joe Biden enfraqueça relações com Israel. Mas, sem a menor dúvida, as relações devem mudar. Não apenas em função do passado recente de diferenças entre Obama e Netanyahu, mas porque o próprio Partido Democrata está em processo de mudança – assim como a sociedade norte-americana. Como exemplo, há novos nomes que se fortalecem no partido e que criticam Israel de maneira contundente – casos das congressistas Ilhan Omar, Rashida Tlaib e Alexandria Ocasio-Cortez. As três se reelegeram facilmente durante o atual processo eleitoral. Em junho, assinaram carta ao Secretário de Estado Mike Pompeo exigindo que os EUA interrompessem o envio de assistência financeira a Israel, caso Netanyahu seguisse adiante com o projeto de anexação de parte da Cisjordânia/Judeia e Samária – a anexação acabou não ocorrendo, como se sabe.

Talvez uma das formas de projetar as possibilidades de relacionamento entre EUA e Israel se confirmada a vitória do candidato Democrata esteja numa declaração de Biden de 2014, dita durante Assembleia Geral da Federação Judaica da América do Norte, organização que representa 146 federações e 300 comunidades judaicas independentes do continente: “(Netanyahu) tem sido um amigo há mais de 30 anos. Bibi, eu não concordo com nada do que você diz, mas eu te amo”.