No ano que durou dez anos, a Turquia tem se reafirmado como potência

27 de Novembro de 2020
Por Henry Galsky, de Israel A Turquia é um dos atores internacionais mais relevantes do mundo contemporâneo, mas certamente suas ações recebem pouca atenção. Ou melhor, não recebem qualquer atenção, em especial se examinarmos os impactos da política externa levada adiante pelo presidente Recep Tayyip Erdogan. Escrevo com alguma frequência por aqui sobre os anseios de retorno ao período Otomano por parte da liderança turca, mas, entre todas as muitas complexidades apresentadas pelo ano de 2020, as ações de Erdogan têm sido para lá de ambiciosas. 

Há um termo cunhado para definir o processo de expansão levado adiante pelo presidente turco: neo-otomanismo. Ou seja, a ideia de que o moderno Estado turco não apenas valoriza a herança de seu império fundador (o Império Otomano), mas também busca, nos dias atuais, reconstruí-lo. É claro que é impossível imaginar o ressurgimento imperial otomano, mas as diretrizes de Ancara apresentam de forma até bastante evidente o interesse de reafirmar o poderio do país em territórios que ora foram - ou não - parte do império. 

Iraque, Síria, Catar, Sudão, Líbia e o conflito de Nagorno-Karabakh (entre Armênia e Azerbaijão) representam alguns dos exemplos recentes de envolvimento internacional da Turquia. No caso do conflito líbio - cuja guerra civil permanece desde 2011 -, a interferência de Erdogan tem assustado os países árabes, inclusive as monarquias do Golfo e o Egito, que faz fronteira com a Líbia.

Lembrando sempre que o principal interesse internacional da Turquia é impedir a todo custo a autodeterminação do povo curdo, minoria que compõe entre 15% e 20% da população turca, mas que também se espalha por Iraque, Síria e Irã. Estima-se haver 30 milhões de curdos em todos esses países - metade deste total está na Turquia. O conflito entre a Turquia e os curdos permanece até os dias de hoje e desde 1984 já deixou entre 30 mil e 40 mil mortos. 

Com o surgimento do Estado Islâmico (EI) e sua invasão ao Iraque e à Síria, os EUA formaram uma grande coalizão de forças de forma a conter a expansão do grupo. Entre os principais aliados norte-americanos estavam os curdos da Síria, que atuaram de maneira decisiva para a derrota do EI. O temor de Erdogan é que o próximo governo norte-americano liderado por Joe Biden reforce a aliança e declare apoio ao projeto de autonomia - ou mesmo autodeterminação - num território destinado aos curdos no norte da Síria. 

Tendo este temor como pano de fundo - como um deles -, a Turquia assinou um acordo no valor de 2,5 bilhões de dólares para adquirir o sistema de mísseis S-400 da Rússia. Este é um dado relevante porque reforça a ambiguidade da Turquia em relação ao Ocidente. O país é membro da OTAN, a aliança militar ocidental, e chegava inclusive a pleitear o ingresso como país-membro da União Europeia (UE) - neste caso, especificamente, as negociações para acesso ao bloco foram congeladas em junho de 2018. 

A guinada turca ao chamado neo-otomanismo tornou o país uma espécie de ator independente e em permanente confronto com membros dos mais diversos estados do sistema internacional. Em 2020, além de buscar reafirmar protagonismo (o que inevitavelmente alavanca choques frequentes), optou por reivindicar supostos direitos de exploração de gás e petróleo na porção oriental do Mediterrâneo - aumentando a disputa com Grécia e Chipre - e, de forma a provocar ainda mais os europeus, Erdogan disse mais uma vez ser favorável à divisão do Chipre em dois estados: um de língua grega, outro de idioma turco. A Turquia invadiu uma porção do norte da ilha em 1974 e desde então mantém o território ocupado: a República Turca do Norte do Chipre (TRNC, em inglês) é reconhecida apenas pela Turquia. Na foto que ilustra este texto, a visita recente de Erdogan ao território.  

A Turquia é um desafio às mais diversas lideranças internacionais. E será um desafio também ao presidente-eleito dos EUA, Joe Biden. Lembrando sempre que os turcos são membros da OTAN, como mencionei acima, e que não há histórico de expulsão no bloco.