É difícil encontrar nesta região a linha que divide política interna e externa. A tensão e os ataques em curso neste momento são resultado de uma sucessão de acontecimentos internos em Israel, mas que ecoam passos e mudanças significativas da geopolítica do Oriente Médio. A marca inicial da atual rodada de enfrentamentos está em Jerusalém e no enorme capital simbólico que a cidade carrega intrinsecamente – neste caso em especial a judeus e muçulmanos, uma vez que os cristãos não estão envolvidos nesta disputa específica.

Jerusalém é a cidade mais sagrada do judaísmo. Nela ocorreram alguns dos fatos mais relevantes da história judaica e a cidade foi construída para abrigar o Templo – cuja única ruína restante é justamente o Muro Ocidental (ou Muro das Lamentações), o lugar mais sagrado do judaísmo. Mas em Jerusalém também se encontram o Domo da Rocha e a Mesquita de Al-Aqsa, complexo que representa o terceiro lugar mais sagrado do islamismo, ficando atrás de Meca e Medina. Os muçulmanos acreditam que foi a partir deste ponto que o profeta Maomé ascendeu ao Paraíso.

Esse complexo é chamado de Monte do Templo, pelos judeus, e de Nobre Santuário, pelos muçulmanos.

Trazendo esse arcabouço religioso aos nossos dias, Jerusalém ocupa lugar especial, portanto, na formação dos mitos nacionais de israelenses e palestinos. Entre 1948 e 1967, a cidade esteve sob domínio da Jordânia. Após a vitória israelense na chamada Guerra dos Seis Dias, em 1967, passou a ser governada por Israel. Desde então, corre no imaginário do mundo muçulmano uma teoria de conspiração de que os judeus pretendem, entre outros, destruir a Mesquita de Al-Aqsa de forma a reconstruir, em seu lugar, o Grande Templo judaico – destruído e reconstruído duas vezes. A última destruição ocorreu no ano de 70 da Era Comum promovida pelo Império Romano.

Tudo isso para dizer que Jerusalém é um ponto de permanente tensão (o que em inglês recebe o nome de “flashpoint”) e o mundo muçulmano vê com muita desconfiança qualquer movimento distinto de Israel na cidade, em especial na parte oriental. Desta forma – agora chegando aos dias de hoje e aos acontecimentos em curso – a ameaça de despejo de 70 palestinos do bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém oriental, foi acompanhada por todo esse escopo de narrativa. Israel enxerga a questão de forma mais técnica, e o Ministério das Relações Exteriores classificou-a como disputa imobiliária. Isso porque neste caso de Sheikh Jarrah diferentes instâncias jurídicas em Israel determinaram que esses palestinos vivem em casas construídas em terrenos que pertenciam a associações religiosas judaicas antes do estabelecimento de Israel, em 1948. Há uma lei no país que permite a judeus reivindicarem terrenos que se enquadram nesta situação.

De acordo com o site de notícias Walla, o procurador-geral de Israel, Avichai Mandelblit, escreveu uma declaração juramentada contendo a opinião e a análises de membros sêniores de oficiais da segurança do país alertando que o despejo das famílias palestinas poderia levar a uma escalada de tensão. A decisão de despejo foi congelada e não foi levada adiante. Isso não evitou o aumento da violência por outras razões – inclusive em função do que escrevi mais acima sobre a ideia de que os judeus pretendem alterar o status-quo da cidade e de que esta tese encontra enorme difusão no mundo muçulmano.

Por que a situação é uma oportunidade ao Hamas?

Tudo isso se traduziu também numa grande oportunidade ao Hamas, o grupo terrorista que de fato controla a Faixa de Gaza. Lembrando que os palestinos vivem em dois territórios distintos: Gaza – sob controle do Hamas – e Cisjordânia – sob o governo da Autoridade Palestina (AP), grupo político com reconhecimento internacional e que mantém, inclusive, relações (frágeis) com Israel. O presidente da AP, Mahmoud Abbas, prometeu que, depois de 15 anos, estaria disposto a realizar eleições entre os palestinos. Mas no final do último mês de abril disse que iria cancelá-las, sob o argumento de que os palestinos que vivem em Jerusalém oriental não teriam garantias de voto. Mas a verdade é que em 2006 Israel permitiu que palestinos de Jerusalém participassem das eleições. Abbas estaria usando o argumento como forma de adiar o pleito e evitar a derrota nas urnas.

O Hamas é um grupo terrorista cujo objetivo declarado é destruir Israel. O objetivo não é a criação de um estado palestino ao lado de Israel, mas a destruição de Israel e a criação de um estado por cima de Israel. Isso é importante ser dito porque está relacionado ao conflito atual.

Em primeiro lugar, o Hamas sabe que nos últimos anos a causa palestina deixou de ter o monopólio dos acontecimentos regionais; a guerra civil na Síria e seus quase 400 mil mortos, a ascensão do Irã e suas pretensões hegemônicas, a aproximação de Israel às monarquias do Golfo são alguns dos elementos transformadores da região.

Por outro lado, a irrelevância cada vez maior da Autoridade Palestina também representa uma oportunidade ao Hamas.

O adiamento das eleições e os confrontos em Jerusalém foram interpretados pelo grupo como uma espécie de tempestade perfeita para seu retorno ao palco central da geopolítica regional. Quando o Hamas iniciou a atual rodada de enfrentamento com Israel lançando sete foguetes sobre Jerusalém ele enviou duas mensagens importantes: a primeira, aos palestinos, de que mesmo restrito a Gaza o grupo tem poder de influência no outro lado da vida palestina; a segunda, de que, ao contrário da Autoridade Palestina, o Hamas é capaz de afetar e alterar decisões israelenses em Jerusalém; e, finalmente, a terceira mensagem, a que reforça a razão de existência do próprio grupo terrorista.

Essa última mensagem é como um manifesto e é direcionada aos novos aliados de Israel no mundo árabe: a normalização de relações diplomáticas entre Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Israel é a antítese do Hamas – e, portanto, entendida como ameaça direta ao grupo. A ideia de que esses países podem manter relações pacíficas contradiz o projeto do Hamas. Desta maneira, seu isolamento – e da tese que defende, a de negação ao próprio direito de existência de Israel – poderia ser entendido como um primeiro passo para sua irrelevância.

Assim, os confrontos em Jerusalém surgiram como a grande oportunidade de retorno do Hamas ao palco da geopolítica regional: o grupo se reafirma como o único capaz de influenciar a vida palestina, “defender” Jerusalém (vide os mitos em relação à cidade sobre os quais escrevi acima), mostrar a insignificância da Autoridade Palestina e, finalmente, expor os países árabes que se aproximaram de Israel recentemente. Para o grupo – mesmo sabendo o preço que terá de pagar após lançar mil foguetes sobre Israel em apenas dois dias – esta era a grande oportunidade pela qual vinha esperando.

Henry Galsky, fundador, administrador e editor do site Carta e Crônica, é jornalista especializado em assuntos de política internacional e com ampla vivência e pesquisa do Oriente Médio. No ano de 2006, em Israel, cobriu para a rádio CBN o conflito que ficou conhecido como a Segunda Guerra do Líbano. No ano seguinte, já no Brasil, deu início às análises publicadas no CeC. Colaborou com o Stratfor, empresa norte-americana líder mundial no setor privado de projeções e análises geopolíticas. Durante dez anos, manteve o blog de Política Internacional do jornal O Tempo, de Minas Gerais. Desde 2007, já escreveu mais de 3 mil textos sobre Política Externa com ênfase em assuntos do Oriente Médio.

Leave A Reply