No meu texto anterior, apresentei o panorama do entorno do conflito atual. Por mais que haja na grande imprensa brasileira uma certa repetição de slogans quanto a “guerra infinita”, “problema milenar”, “confrontos impossíveis de serem resolvidos” etc, esta rodada de enfrentamento – e eu chamo de rodada porque ao longo deste século 21 há uma clara e periódica repetição do ciclo de violência entre Hamas e Israel – apresenta mensagens e, possivelmente, resultados distintos.

Permito-me aqui fazer um paralelo: em 2006, o grupo terrorista libanês Hezbollah sustentou um conflito de 34 dias com Israel. Por mais que as baixas do lado libanês tenham sido numericamente superiores às israelenses, a narrativa do Hezbollah encontrou eco internamente no Líbano e ao redor do Oriente Médio. O Hezbollah clamou vitória; a região se dividiu: alguns atores embarcaram no discurso do grupo. Outros interpretaram como empate. Seja como for, o Hezbollah conseguiu passar adiante sua visão de ter conseguido resultado distinto à derrota – algo inédito na região quando se recorda o histórico do conflito árabe-israelense.

No dia seguinte ao que se convencionou chamar de Segunda Guerra do Líbano, o Hezbollah se transformou no principal ator não-estatal do Oriente Médio, além de sucessivas conquistas internas na política e sociedade libanesas. Isso sem entrar no mérito neste texto de partir para a análise quanto às alianças regionais e aos movimentos do eixo xiita no Oriente Médio – do qual Irã e Hezbollah fazem parte. Eu costumo escrever que, também para além do lugar-comum de fora para dentro que existe sobre esta região, as guerras e disputas militares, políticas e econômicas entre xiitas e sunitas configuram o principal fator de instabilidade do Oriente Médio.

Evidentemente o Hamas é parte deste tecido regional. E, também evidentemente, sabe o que poderia extrair a partir de uma nova rodada de enfrentamentos com Israel. Por mais que a carta de fundação do grupo seja explícita ao afirmar a intenção de exterminar Israel, o Hamas sabe que pela via militar convencional a diferença técnica entre as partes é abissal. Muito embora o grupo tenha obtido avanços em relação a isso também (vale dizer que, ao longo de todo o conflito de 2014 com Israel, que se estendeu por 51 dias, o Hamas disparou cerca de 4.500 foguetes. Por ora, em nove dias, já lançou sobre o Estado judeu em torno de 3.500).

O ponto é que o Hamas sabe que este não é um conflito convencional. E seus objetivos tampouco o são. O Hamas sabe que não é páreo para um enfrentamento militar com Israel. Mas, mesmo assim, estabeleceu metas ousadas (isso não está escrito em lugar nenhum, mas o que vale são os resultados):

Já mencionei o primeiro aspecto (o mais óbvio): está claro o avanço militar do grupo. Não apenas na quantidade de foguetes (acho o termo “foguetes” em português impreciso, mas este é de fato o nome técnico), mas na “qualidade”; se antes as rodadas de violência ficavam mais ou menos restritas ao sul de Israel e à região de fronteira com Gaza, agora o Hamas colocou o centro de Israel na mira, forçando a interrupção da rotina justamente da região mais densamente habitada do país.

Expliquei o segundo ponto no texto anterior, mas é muito importante retomá-lo; o Hamas conseguiu influenciar acontecimentos e decisões israelenses na capital do país, Jerusalém. A cidade fica em território até agora inacessível ao grupo. Mas o enfrentamento atual representa também uma mudança em relação a isso. De quebra, o Hamas enfraquece demais seus rivais na Autoridade Palestina (AP), tornando-a irrelevante diante do próprio público – os palestinos que vivem na Cisjordânia – e também diante da comunidade internacional. Além disso, reitera que, apesar da AP e de suas forças policiais, o Hamas é o único grupo capaz de reafirmar a importância de Jerusalém e resguardá-la em sua disputa simbólica com Israel – no texto anterior expliquei longamente este assunto. Clique aqui para ler.

Outra grande conquista sob o ponto de vista do Hamas é a quebra do frágil equilíbrio interno da sociedade israelense. Israel é um país judaico, mas com uma grande minoria árabe. Cerca de 20% da população israelense são árabes. Aqui não me refiro aos palestinos a partir do entendimento político e geográfico do termo palestino (os árabes que vivem em Gaza e na Cisjordânia). Refiro-me a 20% da população de Israel formada por árabes com cidadania israelense e que vivem em cidades no interior das fronteiras israelenses. Há cidades mistas – onde moram árabes e judeus, como Lod (onde fica o aeroporto internacional de Israel) – e cidades majoritariamente árabes, como Nazaré, no norte de Israel. Normalmente, a relação entre judeus e árabes dentro do Estado de Israel é amistosa e pacífica. O conflito atual quebrou esta frágil harmonia. O Hamas incitou a população árabe para realizar ataques a judeus. Ao mesmo tempo, houve também ataques de judeus contra árabes-israelenses.

Há ainda o fator político formal interno em Israel. Como se sabe, Israel já realizou quatro eleições num período de dois anos. Os pleitos foram incapazes de atingir consenso mínimo de qualquer coalizão de partidos que obtivesse a marca de 61 membros do Knesset, o parlamento do país. O número mágico representa a maioria mínima no parlamento. No entanto, agora havia a perspectiva de algum resultado palpável a partir das complexas negociações entre os partidos. Havia mesmo a perspectiva de o chamado “bloco da mudança” – que pretendia substituir o governo do atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu – anunciar finalmente ter conseguido formar uma coalizão justamente na semana em que o Hamas lançou sete foguetes sobre Jerusalém, marcando o início do atual ciclo de enfrentamentos.

Para completar, o “bloco da mudança” provavelmente anunciaria uma novidade inédita na história de Israel: contaria com a participação do Ra’am (Movimento Islâmico) e suas cinco cadeiras no parlamento conquistadas na última votação. O líder do partido, Mansour Abbas, tem adotado cada vez mais posicionamentos pragmáticos e suas ações repercutem como um marco nas relações entre árabes e judeus. Antes dos sete fogutes lançados pelo Hamas, uma nova era se anunciava em Israel com a participação ativa – e pela primeira vez – de um partido árabe na coalizão governamental. Neste momento, mesmo com Mansour Abbas ainda mostrando pragmatismo e serenidade, há poucas perspectivas de que o Ra’am faça parte do próximo governo.

Henry Galsky, fundador, administrador e editor do site Carta e Crônica, é jornalista especializado em assuntos de política internacional e com ampla vivência e pesquisa do Oriente Médio. No ano de 2006, em Israel, cobriu para a rádio CBN o conflito que ficou conhecido como a Segunda Guerra do Líbano. No ano seguinte, já no Brasil, deu início às análises publicadas no CeC. Colaborou com o Stratfor, empresa norte-americana líder mundial no setor privado de projeções e análises geopolíticas. Durante dez anos, manteve o blog de Política Internacional do jornal O Tempo, de Minas Gerais. Desde 2007, já escreveu mais de 3 mil textos sobre Política Externa com ênfase em assuntos do Oriente Médio. Atualmente, vive em Israel.

Leave A Reply