A rodada de 11 dias de conflito entre Israel e Hamas se encerrou e o projeto do grupo terrorista é tentar se estabelecer como ator estatal e não-estatal. Ao mesmo tempo, procura ampliar seus alcances, buscando consolidação interna e externa. Se antes o discurso parecia restrito aos palestinos, agora sua liderança celebra o amplo apoio internacional recebido. Mas é preciso entender exatamente que projeto é este.

O Hamas quer sobrepôr-se à Autoridade Palestina (AP). A AP é o governo palestino que usufrui de reconhecimento internacional. Por isso, este é o objetivo mais imediato do Hamas – procurar a consolidação como a autoridade real dos palestinos, portanto sobrepondo-se não apenas à própria AP, mas também às razões pelas quais a entidade foi criada, em 1994, durante o processo de paz com Israel, os Acordos de Oslo. Derrubar a AP também representa para o Hamas a desconstrução da narrativa que sustenta a) o estabelecimento de relações com Israel e b) a própria ideia de dois estados (sim, porque, apesar de inexistente na prática, a ideia lançada pelos Acordos de Oslo não está morta em teoria. E se a AP existe como entidade estatal é porque ela nasceu fruto de negociações diretas com Israel cujo objetivo final era a criação de um estado palestino ao lado de Israel, não por cima dele).

Bom, quem pretende construir um estado islâmico por cima de Israel é o Hamas. Que, por sinal, jamais escondeu este objetivo de ninguém, é importante dizer. Portanto, também é importante lembrar que a Autoridade Palestina e o Hamas possuem objetivos explicitamente opostos. Há quem acredite que o Hamas ao longo do tempo mudará de ideia e aceitará a existência de Israel. Mas esta é a história que se conta de fora para dentro. Não gosto de usar expressões em inglês, mas acho que aqui uma delas pontualmente se encaixa; seria o que se chama de “wishful thinking“. O Hamas, ao contrário, sempre deixa claro que não está disposto a isso.

O Hamas tem outro público também: na região, a narrativa de vitória do grupo está ganhando força. Por um lado, isso é positivo junto a seus patrocinadores, como o Irã. Outro patrocinador – o Catar – deu palco ao líder do grupo terrorista, Ismail Hanyieh (foto), que não apenas declarou vitória como também comemorou o fato de o conflito recente ter impedido as tentativas de Israel de integração com países do Mundo Árabe:

“Esta batalha destruiu o projeto de ‘coexistência’ com a ocupação israelense, o projeto de ‘normalização’ com Israel”, disse.

Hanyieh mora no Catar. Para quem não está lembrado, o Catar é aquele país moderno e aberto onde no próximo ano será realizada a Copa do Mundo. É lá que Hanyieh recebeu morada e espaço público para demonizar a coexistência entre árabes e judeus e também os acordos de normalização entre países árabes e Israel.

Quando o líder do Hamas faz ataques a coexistência entre árabes e judeus também está se referindo às relações – normalmente pacíficas – entre as populações árabe e judaica dentro das fronteiras de Israel. Os cidadãos judeus e árabes de Israel, para ser mais claro. Tanto que na sequência de seu pronunciamento ele mencionou a revolução nas fronteiras de 1948 (Israel, portanto).

Veja o vídeo aqui

O líder terrorista agradeceu ao apoio obtido nos países árabes e também às manifestações no Ocidente e na Europa.

Neste ponto, é preciso pensar de forma racional; se o Hamas deixa claro que pretende destruir Israel, é contra a normalização das relações diplomáticas entre Israel e os países árabes e exalta o que chama de “destruição do projeto de coexistência” entre árabes e judeus, o que seria dos judeus neste território caso a visão de mundo do Hamas se concretizasse?

Para ser bastante claro: toda vez que uma bandeira verde do Hamas é desfraldada na Europa, nos EUA ou em qualquer lugar, ateia-se fogo à bandeira da coexistência. Este é o projeto. Sem espaço para “wishful thinking“.

Henry Galsky, fundador, administrador e editor do site Carta e Crônica, é jornalista especializado em assuntos de política internacional e com ampla vivência e pesquisa do Oriente Médio. No ano de 2006, em Israel, cobriu para a rádio CBN o conflito que ficou conhecido como a Segunda Guerra do Líbano. No ano seguinte, já no Brasil, deu início às análises publicadas no CeC. Colaborou com o Stratfor, empresa norte-americana líder mundial no setor privado de projeções e análises geopolíticas. Durante dez anos, manteve o blog de Política Internacional do jornal O Tempo, de Minas Gerais. Desde 2007, já escreveu mais de 3 mil textos sobre Política Externa com ênfase em assuntos do Oriente Médio. Atualmente, vive em Israel.

Leave A Reply