Queria muito comprar um carro. Entrei na concessionária e vi o carro perfeito. Consultei o vendedor e descobri que poderia comprá-lo, mas desde que comprovasse renda um pouco maior que a minha. Mas não tenho tempo hábil de conseguir um segundo emprego. Então tenho uma ideia. Consigo um documento de um conhecido – não de um amigo próximo – atestando que sou seu funcionário. Na verdade não sou. Mas tenho o papel, apenas isso. De qualquer forma é o suficiente para eu retornar à concessionária e apresentá-lo ao vendedor. Agora, em teoria, posso comprar um carro.

E a verdade é que faço isso. Encontro o vendedor novamente, mas desta vez munido de todos os documentos de comprovação de renda. Uma renda que eu não tenho, mas que sob o ponto de vista burocrático me permite a compra do carro. Agora tenho um carro. Mas preciso pagar as prestações. Mas isso eu vejo mais adiante. Agora saio da concessionária dirigindo o meu carro.

Bom, essa história não aconteceu comigo. Mas explica em parte as negociações que finalmente permitiram a formação de um governo em Israel. Um governo cuja “compra do carro novo” é a derrubada de Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro que ocupa o cargo há 12 anos, o mais longevo líder da história do país.

O chamado Bloco da Mudança é diverso, mas todos os seus membros tinham como objetivo a substituição de Netanyahu. Este é o ponto a uni-los. A coalizão é complexa e inclui partidos das mais diversificadas origens e matizes ideológicas: direita, centro, esquerda e o primeiro partido árabe a exercer papel vital no governo (se de fato a coalizão sobreviver ao Voto de Confiança no Knesset, o parlamento israelense).

Há 120 cadeiras no Knesset; qualquer coalizão que pretenda formar um governo precisa de maioria simples, 61 assentos, portanto. Este é exatamente o número alcançado pelo Bloco da Mudança. Na liderança, dois políticos que, segundo o acordo assinado entre os membros da coalizão, irão se revezar no cargo de primeiro-ministro: primeiro Naftali Bennett (Na foto, do partido de direita Yamina). Depois, Yair Lapid (do partido de centro Yesh Atid), que assumirá a partir de setembro de 2023.

A composição a sustentar o governo é a seguinte:

Yesh Atid (centro) – 17 cadeiras

Azul e Branco (centro) – 8 cadeiras

Yisrael Beitenu (direita) – 7 cadeiras

Yamina (direita) – 6 cadeiras

Nova Esperança (direita) – 6 cadeiras

Trabalhista (esquerda) – 7 cadeiras

Meretz (esquerda) – 6 cadeiras

Ra’am (árabe) – 4 cadeiras

Aqui vale uma explicação: o Ra’am é um partido que representa o Movimento Islâmico em Israel. É complicado enquadrá-lo em definições de esquerda e direita; por exemplo, ele é contrário à presença israelense na Cisjordânia, território onde se imagina que haverá um estado palestino (isso o colocaria afiliado às posições da esquerda israelense), mas, por outro lado, o próprio partido se define como conservador e mantém posições profundamente homofóbicas (contrariamente à esquerda israelense).

Aliás, como forma de mostrar as posições antagônicas dentro da própria coalizão, acho válido apresentar as divergência em torno do conflito com os palestinos; Bennett, o primeiro-ministro que comandará o bloco até setembro de 2023, é contrário à criação de um estado palestino. Defende a coexistência com os palestinos e que eles tenham alguma autonomia, mas não um estado. Meretz e Avodá (Trabalhista), os partidos de esquerda, são favoráveis à retomada de negociações que resultariam num estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Os partidos de centro Yesh Atid e Azul e Branco cada vez mais aderem publicamente a esta mesma posição.

Avigdor Lieberman, líder do Yisrael Beitenu, é laico e defende igualdade entre os cidadãos israelenses, inclusive pretende aumentar o percentual de judeus ultraortodoxos que seriam obrigados a se alistar no exército, uma posição bastante controversa, até porque os partidos ultraordoxos são contrários a ela. Gideon Saar, do Nova Esperança, é favorável à construção dos assentamentos judaicos na Cisjordânia; assim como o próprio Bennett. E Lieberman. Os partidos de esquerda de Israel – representados na coalizão – são contra. Assim como o Ra’am, evidentemente. Apenas uma pequena demonstração das muitas discordâncias a caminho.

Aliás, o Ra’am diz ter entrado na coalizão com o objetivo de melhorar a vida dos cidadãos árabes-israelenses. Teria obtido a promessa de 53 bilhões de shekels (cerca de 16 bilhões de dólares) a serem investidos no desenvolvimento da sociedade árabe em Israel. Talvez aqui esteja a chave para manter o governo (se ele de fato for confirmado).

O único caminho possível para a manutenção de um bloco com tal diversidade ideológica é o pragmatismo. No parlamentarismo, divisões internas levam a quebra de acordos de coalizões. Governos de união nacional só sobrevivem se evitarem debates ideológicos e, mais ainda, decisões ideológicas. Um governo como este – de direita, de centro, de esquerda, com a participação de parlamentares árabes – só se mantém enquanto pisar leve na ideologia. Há uma única razão que o sustenta: a oposição a Benjamin Netanyahu, nada além disso.

Bastará apenas uma questão ideológica na mesa – em Israel isso acontece todos os dias – para levar à divisão (e portanto ao fim) do governo. A única saída, portanto, é evitá-las ao máximo, apostando no pragmatismo. Caso contrário, esta coalizão representará tão somente um respiro breve entre o quarto e o quinto processos eleitorais.

Henry Galsky, fundador, administrador e editor do site Carta e Crônica, é jornalista especializado em assuntos de política internacional e com ampla vivência e pesquisa do Oriente Médio. No ano de 2006, em Israel, cobriu para a rádio CBN o conflito que ficou conhecido como a Segunda Guerra do Líbano. No ano seguinte, já no Brasil, deu início às análises publicadas no CeC. Colaborou com o Stratfor, empresa norte-americana líder mundial no setor privado de projeções e análises geopolíticas. Durante dez anos, manteve o blog de Política Internacional do jornal O Tempo, de Minas Gerais. Desde 2007, já escreveu mais de 3 mil textos sobre Política Externa com ênfase em assuntos do Oriente Médio. Atualmente, vive em Israel.

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