O novo primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, alcançou o posto mais importante da política do país e destronou Benjamin Netanyahu a partir de uma estratégia pragmática. Neste momento em que o mundo corre para buscar entender as mudanças no cenário israelense, é preciso compreender não apenas os caminhos percorridos por Bennett, mas contextualizar as batalhas internas que transformaram o líder de um partido pouco votado no sucessor do primeiro-ministro mais longevo da história do estado judeu.

Talvez por pouco entendimento ou por dedicação exclusiva à cobertura do conflito israelense-palestino, parte da imprensa internacional (brasileira, inclusive) vem ressaltando a posição contrária de Bennett à criação de um estado palestino. O desconhecimento das questões e dos processos por vezes complexos do parlamentarismo israelense pode levar a um entendimento equivocado de que Bennett ascendeu ao cargo em função deste posicionamento. Ou que este assunto estabelecerá o norte da política israelense em seu governo. Nenhuma dessas afirmações é correta.

É preciso olhar o quadro mais amplo dessa história; desde abril de 2019, Israel realizou quatro eleições. Nenhuma delas foi capaz de estabilizar o cenário político. Mesmo a coalizão formada entre Netanyahu e seu opositor Benny Gantz permaneceu dividida na prática. Naftali Bennett foi capaz de interpretar a situação de maneira muito lógica ao entender que o impasse permaneceria, caso os espectros ideológicos insistissem em buscar hegemonia. Na prática, Bennett compreendeu que depois de quatro eleições o campo da direita – ao qual pertence – não conseguiria formar um governo unificado em torno de Netanyahu.

Netanyahu tem adversários também entre os políticos de direita. O próprio Bennett, Gidon Sa’ar (que deixou o Likud por divergências com o ex-primeiro-ministro), Avigdor Lieberman. Todas essas lideranças e seus partidos estão no novo governo. Mas nenhum deles tinha interesse de estar na coalizão de Netanyahu. Ao longo do último processo eleitoral, Bennett deixou claro que preferia estar desalinhado. Não queria estar vinculado a nenhum dos campos formais da disputa. Não queria ser identificado como liderança cujos propósitos e objetivos políticos orbitavam em torno de Netanyahu – como vinha acontecendo ao longo das sucessivas eleições ocorridas desde abril de 2019.

Isso explica em parte as razões pelas quais Bennett se tornou primeiro-ministro. Mesmo que seu partido, o Yamina, tenha conquistado apenas sete cadeiras (das 120) no parlamento. Portanto, caso a agenda contrária a um estado palestino estivesse no centro do projeto atual de Bennett, o último processo eleitoral deu a ele sete cadeiras, pouco menos de 6% dos votos dos eleitores. Tanto que nas pesquisas de intenção de voto anteriores ao último pleito – realizado em março deste ano – Bennett não era colocado em nenhum dos dois lados polarizados justamente em torno de Netanyahu.

Ao contrário, mesmo depois das eleições, Bennett e Netanyahu chegaram a negociar a possibilidade de um acordo. O chamado Bloco da Mudança – do qual hoje é líder – não contou com Bennett logo na sequência das eleições de março. Bennett é o atual primeiro-ministro em função de toda a complexidade política, um impasse que durou mais de dois anos e que, apesar de agora haver um governo, ainda permanece. Bennett traçou uma linha de ação que se mostrou vitoriosa justamente porque, apesar do resultado modesto nas urnas, vendeu caro sua aliança.

Ao mesmo tempo em que não entrou no jogo da polarização, foi capaz também de adotar postura pragmática ao afirmar que – corretamente, por sinal – era impossível estabelecer um governo apenas de direita. Este é um fato, não uma opinião. Quatro eleições deixaram evidente que a sociedade israelense tem olhar plural em suas preferências ideológicas, tendo sido impossível ao longo desses dois últimos anos apresentar um projeto de governo que contasse apenas com o campo da direita. Naftali Bennett surge como primeiro-ministro justamente em função deste quadro mais complexo do parlamentarismo pluripartidário de Israel. Não em função de como enxerga o conflito com os palestinos e suas eventuais soluções. Isso influenciou muito pouco o processo.

Neste momento, Bennett comanda uma aliança de oito partidos. De direita, de centro, de esquerda e um partido árabe. Ao enfatizar os distintos pontos de vista da coalizão, pediu a seus ministros moderação justamente em função desta diversidade ideológica. Bennett neste momento está mais interessado em estabilidade do que em conquistas grandiosas. Sabe que se buscar este último caminho seu governo irá durar muito pouco. A tendência é que seja um primeiro-ministro moderado mais preocupado em realizar feitos do cotidiano do que obter resultadoshistóricos -sejam eles alinhahados aos projetos da direita ou da esquerda israelenses.

Henry Galsky, fundador, administrador e editor do site Carta e Crônica, é jornalista especializado em assuntos de política internacional e com ampla vivência e pesquisa do Oriente Médio. No ano de 2006, em Israel, cobriu para a rádio CBN o conflito que ficou conhecido como a Segunda Guerra do Líbano. No ano seguinte, já no Brasil, deu início às análises publicadas no CeC. Colaborou com o Stratfor, empresa norte-americana líder mundial no setor privado de projeções e análises geopolíticas. Durante dez anos, manteve o blog de Política Internacional do jornal O Tempo, de Minas Gerais. Desde 2007, já escreveu mais de 3 mil textos sobre Política Externa com ênfase em assuntos do Oriente Médio. Atualmente, vive em Israel.

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