Durante 11 dias, o Hamas e Israel travaram uma guerra de extensão limitada que deixou 269 mortos.

Mas existe uma guerra de proporções maiores – muito maiores – sendo travada ali próximo, na Península Arábica, da qual muita gente provavelmente nunca ouviu falar. Um conflito que é definido pela ONU como a maior crise humanitária no mundo.

A crise começou quando o grupo terrorista xiita houthi – apoiado e financiado pelo Irã – invadiu o Iêmen, em 2014. No ano seguinte, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita buscou conter seu avanço. O confronto entre Arábia Saudita e houthis é mais um dos capítulos do principal fator de instabilidade no Oriente Médio (foto): os embates entre sunitas e xiitas.

Um alerta da ONU emitido em fevereiro deste ano estima que ao menos 400 mil crianças com menos de cinco anos de idade podem morrer de fome no Iêmen em 2021. Quatro agências da ONU consideram um aumento de 22% na taxa de desnutrição em relação a 2020. O Iêmen também é atingido hoje pela maior crise de cólera do mundo: entre outubro de 2016 e dezembro de 2020, a estimativa é que dois milhões e meio de pessoas tenham contraído a doença.

Oitoenta por cento da população do país de 30 milhões de habitantes vivem hoje em estado de miséria. Dados oficiais da ONU dão conta de que desde o início do conflito já morreram cem mil pessoas.

Na Síria, país vizinho de Israel, os números também são superlativos. Desde o início da Guerra Civil, em 2011, morreram cerca de 400 mil pessoas – a maior parte, civis. Cinco milhões de pessoas buscam refúgio internacional como resultado da guerra. Cerca de seis milhões de civis são deslocados internos no país. A Rússia entrou no conflito em 2015 para manter no poder seu aliado, o presidente sírio Bashar al-Assad. Assad usou armamento químico não contra inimigos, mas contra a própria população civil. Três vezes.

Apesar dos sucessivos bombardeios aéreos em áreas civis realizados pela Rússia, não houve boicote ao país. Muito pelo contrário; três anos após iniciar as ofensivas para a manutenção de Assad no cargo, o país sediou a Copa do Mundo sem maiores constrangimentos.

Há também uma busca por autodeterminação silenciada; os curdos, uma população estimada entre 30 e 40 milhões de pessoas, lutam pela criação de um estado nacional em algum território onde este grupo étnico vive; são sucessivamente reprimidos por Irã, Iraque, Síria e, principalmente, Turquia. A Turquia tem como norte permanente de seu governo impedir a constituição de um estado nacional curdo em qualquer território que seja.

Desde 1984, quando a insurgência curda se iniciou de forma mais organizada especialmente na Turquia, cerca de 40 mil curdos foram mortos; a maior parte, civis.

Mas nenhum desses conflitos merece atenção da imprensa, solidariedade de celebridades, manifestações e passeatas públicas na maior parte das capitais ocidentais.

Agora vale fazer um paralelo com o conflito árabe-israelense, de maneira mais ampla, e com o conflito entre israelenses e palestinos, de forma mais específica;

Entre 1920 e 1948, foram cerca de seis mil mortos; entre 1948 e 2021, cerca de 63 mil. No total, algo em torno de 70 mil mortos. E aqui estão incluídos todos os conflitos ocorridos ao longo de 101 anos. Os números são questionados pelos dois lados envolvidos porque a disputa narrativa é parte intrínseca deste conflito.

Mas em maior ou menor grau, os dados ilustram o ponto deste texto. O conflito árabe-israelense de forma mais ampla – e o conflito israelense-palestino, mais especificamente – não é o mais mortal, nem o ponto central da instabilidade do Oriente Médio. Se por milagre fosse solucionado agora, neste segundo, o Oriente Médio continuaria a ser uma região problemática. E provavelmente os demais conflitos – mais letais – permaneceriam.

Este é o quadro mais amplo do Oriente Médio. Um quadro que define com precisão o significado do termo “desproporcional” para além dos slogans e das disputas travadas nas redes sociais.

Henry Galsky, fundador, administrador e editor do site Carta e Crônica, é jornalista especializado em assuntos de política internacional e com ampla vivência e pesquisa do Oriente Médio. No ano de 2006, em Israel, cobriu para a rádio CBN o conflito que ficou conhecido como a Segunda Guerra do Líbano. No ano seguinte, já no Brasil, deu início às análises publicadas no CeC. Colaborou com o Stratfor, empresa norte-americana líder mundial no setor privado de projeções e análises geopolíticas. Durante dez anos, manteve o blog de Política Internacional do jornal O Tempo, de Minas Gerais. Desde 2007, já escreveu mais de 3 mil textos sobre Política Externa com ênfase em assuntos do Oriente Médio. Atualmente, vive em Israel.

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