Em meu texto mais recente, iniciei uma abordagem sobre o principal aspecto polarizador e causador de instabilidade no Oriente Médio: a disputa político-religiosa entre sunitas e xiitas. Acho importante aprofundar-me um pouco mais nesta questão central da região. Como escrevi anteriormente e como costumo repetir com frequência, é sempre importante reforçar que um eventual encerramento dos conflitos árabe-israelense (de forma ampla) e israelense-palestino (de forma particular) não terá o poder transformador que o senso-comum imagina. Não mesmo.

A divisão entre sunitas e xiitas sob o ponto de vista religioso é até bastante simples de ser compreendida; a partir da morte do Profeta Maomé, em 632 da Era Comum, seus seguidores iniciaram um debate sobre o caminho para escolher seu sucessor. Basicamente, dois ramos antagônicos se estabeleceram: de um lado, parte dos fiéis acreditava que indivíduos qualificados – sob o ponto de vista da fé – deveriam merecer esta honraria; de outro, parte defendia que este poder deveria ser concedido a quem tivesse vínculos familiares com o Profeta – ou seja, uma sucessão baseada em linhagem sanguínea.

Assim, um grupo de seguidores optou por eleger Abu Bakr, amigo e seguidor de Maomé, como primeiro califa, termo criado para designar a liderança da comunidade islâmica. A decisão não foi acatada pelo outro grupo, que preferia o nome de Ali ibn Abi Talib, primo e genro do Profeta. Esta cisão está no fundamento das duas principais correntes do Islã: os shi’atu Ali, termo em língua árabe para “partidários de Ali”, os xiitas; e os seguidores da Suna, “caminho”, em árabe, que se opõem à sucessão de Maomé baseada em critérios sanguíneos, os sunitas.

Os sunitas representam de longe a maioria dos muçulmanos, cerca de 85% dos 1,6 bilhão de fiéis em todo o mundo. Os xiitas são majoritários pontualmente, em especial em Irã, Iraque, Azerbaijão, Bahrein e em partes do Líbano. Os sunitas representam a maior parte da população nos demais países de maioria muçulmana (50 países de acordo com o Pew Research Center).

Mas, considerando-se a antiguidade deste debate religioso, é pouco provável que esta disputa do campo teórico ainda seja a razão única capaz de explicar a violência regional. E não é mesmo. O pulo do gato para a compreensão dos conflitos entre sunitas e xiitas está nesta reflexão de Omer Taspinar, professor de Estratégia de Segurança Nacional no National War College, nos Estados Unidos:

“Os conflitos sectários se transformaram em guerras de procuração entre Irã e Arábia Saudita, dois atores nacionalistas em busca de (exercer) rivalidade estratégica em lugares onde a governança ruiu. (…) A instrumentalização da religião e a setorização de um conflito político são um modo melhor para abordar o problema (os conflitos entre sunitas e xiitas), mais do que projetar a religião como motor e causa fundamental da situação”, escreve em artigo publicado pelo Brookings Institute.

E esta instrumentalização a qual faz referência tem um ponto de partida: a Revolução Islâmica ocorrida em 1979 no Irã.

Até aquele momento, os aiatolás exerciam a função principal de guardiões da fé. O Aiatolá Khomeini argumentava que as lideranças religiosas xiitas iranianas precisavam ir além deste papel religioso. Sua ideia, logo colocada em prática, era de que deveriam também obter o domínio político de modo a implementar os preceitos do Islã de acordo com as determinações divinas. Esta mudança retórica e prática teve consequências em toda a região. Principalmente porque o novo modelo iraniano também buscava inspirar mudanças similares e conferir apoio a novos aliados para além das fronteiras do país.

Mas, evidentemente, a Revolução Iraniana estava longe de ser ignorada regionalmente. E sua evolução logo provocou preocupação, em especial aos vizinhos sunitas; a Arábia Saudita é adepta de um desdobramento da corrente sunita, o Wahabismo. É no país também onde se localizam as duas principais cidades sagradas islâmicas: Meca e Medina. A partir da transformação do Irã em potência xiita, os sauditas iniciaram um processo de expansão, financiando grupos rivais aos iranianos de forma a conter o projeto de Teerã.

Trazendo a situação para os dias atuais, é quase impossível dissociar a rivalidade e as disputas nacionais entre Irã e Arábia Saudita de todos os conflitos em curso na região. E também em função deste aspecto se deu a convergência entre Israel e as monarquias sunitas do Golfo Pérsico. O olhar absolutamente pragmático sobre a busca por expansão hegemônica iraniana no Oriente Médio acabou por aproximar esses atores.

Não apenas o projeto nuclear é uma ameaça em comum, mas o permanente interesse iraniano em exportar seu modelo político – considerado pelas monarquias do Golfo como ameaça existencial. Ao longo do século 21, o Irã tem obtido sucesso prático na ambição de controle regional ao estender influência e poder entre suas fronteiras e o Mar Mediterrâneo. As alianças com o grupo terrorista xiita Hezbollah, no Líbano, com os Houthis, no Iêmen, com Bashar al-Assad, na Síria, com Hamas e Jihad Islâmica Palestina, em Gaza, e com milícias xiitas em atuação no Iraque colocam os iranianos no centro do tabuleiro do Oriente Médio. O conflito entre sunitas e xiitas – sob o pano de fundo das disputas nacionalistas entre sauditas e iranianos – continua a ser o principal fator de instabilidade na região.

Henry Galsky, fundador, administrador e editor do site Carta e Crônica, é jornalista especializado em assuntos de política internacional e com ampla vivência e pesquisa do Oriente Médio. No ano de 2006, em Israel, cobriu para a rádio CBN o conflito que ficou conhecido como a Segunda Guerra do Líbano. No ano seguinte, já no Brasil, deu início às análises publicadas no CeC. Colaborou com o Stratfor, empresa norte-americana líder mundial no setor privado de projeções e análises geopolíticas. Durante dez anos, manteve o blog de Política Internacional do jornal O Tempo, de Minas Gerais. Desde 2007, já escreveu mais de 3 mil textos sobre Política Externa com ênfase em assuntos do Oriente Médio. Atualmente, vive em Israel.

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