Três documentaristas israelenses decidem ir à África realizar um filme sobre tribos judaicas desaparecidas. Embarcam para a Nigéria na terça-feira, dia 6 de julho. Três dias depois, são presos numa sinagoga do vilarejo de Ogidi, no sudeste do país, e são levados pela polícia secreta nigeriana para a capital, Abuja. Assim começa um intricado quebra-cabeças que envolve muitos capítulos históricos mal-explicados, uma luta separatista comandada por um ex-corretor de imóveis britânico e, finalmente, o trio de documentaristas israelenses que, aparentemente, estava no local errado na hora errada.

Rudy Rochman é um ativista israelense que se tornou conhecido nas redes sociais a partir de vídeos que produz em manifestações pró-palestinas. Ele segue um caminho pouco comum na grande disputa narrativa envolvendo os conflitos entre israelenses e palestinos; procura o engajamento com a militância palestina, abordando seus participantes em busca de diálogo e da desconstrução de estereótipos. Seus vídeos têm milhares de visualizações no Youtube. No documentário em produção na África – cujo projeto é intitulado “We Were Never Lost” (“Nós nunca estivemos perdidos”, em tradução livre) – Rochman é acompanhado pelo diretor Noam Leibman e pelo jornalista Edouard Benaym.

Os três encontravam-se com membros da etnia Igbo, como parte das investigações sobre as tribos judaicas perdidas, quando foram presos. E aqui é preciso voltar no tempo para entender mais sobre a história e a relação dos igbos com o judaísmo; a etnia é uma das maiores da Nigéria, com população estimada entre 20 milhões e 50 milhões de pessoas. Há 30 comunidades igbo no país – com algo entre 1,5 mil e 3 mil pessoas – que praticam o judaísmo e se identificam plenamente como judeus. Há, no entanto, outros 30 mil membros da etnia que dizem ter ascendência judaica, mantêm práticas judaicas, mas também têm crenças cristãs.

Ao longo das gerações, parte dos igbos passa adiante o relato sobre a própria descendência de Jacó, patriarca do judaísmo. Segundo a tradição Igbo, três dos filhos de Gad, o sétimo filho de Jacó, teriam se estabelecido no sudeste da Nigéria, território majoritariamente habitado pela etnia. Sob o prisma maior da história, é importante complementar este dado sobre o desaparecimento das tribos de Israel. Acredita-se que, após a invasão assíria ao reino do norte de Israel, no século oito Antes da Era Comum, dez das 12 tribos judaicas foram forçadas ao exílio. Muitos historiadores não consideram improvável que parte das tribos tenha migrado para oeste, para a África, portanto.

A parte que funde história, tradição e religião termina aqui. Mas ela ajuda a sustentar um pleito nacional que coloca em choque essa região do sudeste da Nigéria com o comando central do país. No centro desta luta está Nnamdi Kanu.

Kanu é um cidadão britânico e ex-corretor de imóveis que vivia no sul de Londres. Desde 2015, é alvo das autoridades nigerianas acusado de terrorismo e incitação. Ele é um líder popular do movimento que busca a independência de Biafra, no sudeste do país. Este movimento separatista voltou a protagonizar disputas com o governo nigeriano a partir da eleição, também em 2015, de Muhamadu Buhari à presidência do país. Buhari foi um major de brigada durante a Guerra Civil da Nigéria ocorrida entre 1967 e 1970. A guerra foi travada entre o governo nigeriano e a autodeclarada independente República de Biafra.

Durante a guerra, as tropas federais nigerianas cercaram o território Igbo, provocando a morte de cerca de 1 milhão de pessoas, a maior parte delas vítima de fome e doenças. Não por acaso, durante muito tempo, em muitos países, inclusive no Brasil, o termo “Biafra” foi associado à fome e desnutrição.

Nnamdi Kanu, líder do atual movimento de independência, nasceu em 1967, justamente o ano de início da Guerra Civil. Em 2014, fundou o movimento Indigenous People of Biafra (IPOB) – em português, Povo Nativo de Biafra, em tradução livre. Kanu se define como judeu. Desde 2015, manifestações pela independência de Biafra têm recebido respostas severas das autoridades nigerianas. A Anistia Internacional estima que mais de 150 pessoas tenham sido mortas no período de um ano entre agosto de 2015 e agosto de 2016. O IPOB conta também com seu braço armado, o Eastern Security Network (ESN) – em tradução livre, Rede de Segurança Oriental.

O número de ataques da ESN aumentou bastante neste ano. Cerca de 130 membros da polícia e das forças de segurança da Nigéria foram mortos em 2021. Estima-se que 20 estações policiais tenham sido atacadas, de acordo com levantamentos da imprensa local.

Entre setembro de 2017 e outubro de 2018, Kanu sumiu do mapa. Até que concedeu entrevista declarando estar em Israel e afirmando dever sua sobrevivência ao Estado judeu. Ninguém soube explicar como ele havia fugido do país. Apesar de um ano antes ter sido liberado da prisão sob fiança, seus passaportes – nigeriano e britânico – continuaram sob a posse das autoridades do país. Mas o líder do movimento separatista acabou por reaparecer; foi preso pela Interpol, na República Tcheca, em junho deste ano.

A relação entre Israel e a luta pela indpendência de Biafra data justamente do período da Guerra Civil nigeriana. A luta dos igbos mobilizou o público israelense no final dos anos 1960 e houve uma forte pressão sobre o governo para que ajudasse esta etnia. Parte da sociedade de Israel é formada por sobreviventes do Holocausto e seus descendentes e muitos no país se sentiram tocados pelas notícias que chegavam da Nigéria. Desta maneira, de forma clandestina, Jerusalém forneceu armamentos e assistência humanitária. Também continuou a vender armas ao governo nigeriano de forma a evitar o rompimento com o comando central do país. Naquela ocasião, o governo israelense entendia que uma eventual crise diplomática com a Nigéria poderia ter consequências devastadoras para todas as relações mantidas com governos do continente africano.

No final dos anos 1960, as imagens e relatos de Biafra causavam comoção no mundo todo, não apenas em Israel. Este trecho do livro A History of Nigeria (em tradução livre, “Uma História da Nigéria”), escrito por Toyin Falola e Matthew M. Heaton, explica outros elementos desta aproximação entre Israel e Biafra:

“As coisas começaram a mudar a favor de Biafra em 1968. Alguns dos estados-membros da Organização da Unidade Africana (OAU, sigla em inglês) – Tanzânia, Gabão, Costa do Marfim e Zâmbia – mudaram de posição e reconheceram Biafra. Influenciados por relatos de ‘genocídio’ (aspas dos autores), outros países da Ásia e da Europa também expressaram solidariedade a Biafra, apesar de nunca reconhecerem Biafra de forma oficial como país independente. Em particular, França e Portugal forneceram a Biafra suprimentos e suporte logístico, enquanto Israel via Biafra – assim como via a própria Israel – como um estado cercado por inimigos com a intenção de destruí-la”, escrevem.

Após quase três semanas, os israelenses foram liberados no último dia 28 de julho sem maiores explicações e receberam a ordem de deixar a o país imediatamente. Desde o início do caso, eles afirmam não ter qualquer relação com as disputas entre Nigéria e a região separatista de Biafra.

Henry Galsky, fundador, administrador e editor do site Carta e Crônica, é jornalista especializado em assuntos de política internacional e com ampla vivência e pesquisa do Oriente Médio. No ano de 2006, em Israel, cobriu para a rádio CBN o conflito que ficou conhecido como a Segunda Guerra do Líbano. No ano seguinte, já no Brasil, deu início às análises publicadas no CeC. Colaborou com o Stratfor, empresa norte-americana líder mundial no setor privado de projeções e análises geopolíticas. Durante dez anos, manteve o blog de Política Internacional do jornal O Tempo, de Minas Gerais. Desde 2007, já escreveu mais de 3 mil textos sobre Política Externa com ênfase em assuntos do Oriente Médio. Atualmente, vive em Israel.

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