Para ser justo com o atual presidente norte-americano, a intenção de retirar todas as tropas dos EUA do Afeganistão não é uma ideia de sua autoria. Pelo menos não originalmente. Seus dois antecessores – Barack Obama, de quem foi vice-presidente, e Donald Trump – manifestaram esta vontade. Por mais que os espectros ideológicos sejam absolutamente opostos, Obama e Trump pretendiam encerrar a presença norte-americana no país. Mas entre intenções e atos existe um abismo enorme. Nem Obama, nem Trump levaram o projeto adiante.

Basta ter em mente que Obama anunciou em 1 de dezembro de 2009 que em 18 meses a partir daquela data iniciaria a retirada das forças dos EUA. Fez menção a este plano em outras ocasiões ao longo do mandato e também durante a vitoriosa campanha de reeleição. Obama acreditava que esta decisão poderia “acabar” com a guerra. Mas ele conhecia as repercussões e os riscos envolvidos e, por isso, desistiu.

Trump também queria retirar as tropas. Como sistematicamente fez campanha contra incursões internacionais de maneira ampla (e também contra a própria atuação internacional do país, inclusive em relação a despesas com política externa e apoio a aliados), evidentemente o Afeganistão entrava na mira das críticas. No entanto, Trump também não levou adiante a empreitada. De alguma maneira, também foi convencido – ou ele mesmo chegou à conclusão – de que deixar o Afeganistão e abrir caminho para uma óbvia retomada do país pelo Talibã enviaria a mensagem errada para aliados e inimigos no Oriente Médio e além.

Biden, no entanto, tomou para si a responsabilidade de encerrar a presença norte-americana em território afegão. E as consequências de sua decisão são muito claras (não era exatamente difícil imaginá-las); os inimigos dos EUA celebram o que já definem como uma grande derrota norte-americana e um feito da “resistência”.

No Oriente Médio mais interessado no conflito com Israel, as respostas são similares: o Hamas publicou um comunicado de congratulações à “nação muçulmana afegã pela queda da ocupação americana”; o recém-empossado presidente iraniano, Ebrahim Raisi, disse que “a derrota militar e a retirada norte-americana devem oferecer uma oportunidade de restaurar a vida, a segurança e a paz duradoura ao país”.

O mesmo caminho foi seguido por Mohammad Javad Zarif, ministro das Relações Exteriores iraniano que está deixando o cargo.

“Violência e guerra – como ocupação – nunca resolvem problemas”, escreveu no Twitter.

Na segunda-feira, Zarif teve um encontro em Teerã com o enviado especial chinês para o Afeganistão.

Está claro que existe um processo acelerado de incorporação deste novo-velho Afeganistão do Talibã ao projeto hegemônico regional iraniano. Mais ainda, há a clara intenção de aliança de forças opostas aos EUA com este novo-velho regime.

Esta é uma derrota inegável da administração Biden; depois de 20 anos de presença norte-americana no país, o Afeganistão será rapidamente incluído num esquema que atende a muitos objetivos dos inimigos dos EUA. Não se trata apenas do Irã, mas do posicionamento estratégico de China e Rússia que pretendem forjar um novo sistema internacional a partir do enfraquecimento norte-americano. A retomada do Afeganistão pelo Talibã facilita este plano não apenas do ponto de vista objetivo, mas também levando-se em conta a desconstrução do imaginário sobre os EUA.

E o imaginário é um aspecto fundamental também em relação ao conflito entre israelenses e palestinos. Não por acaso a celebração da tomada do país pelo Talibã por parte de dois dos atores mais importantes do conflito com Israel: Hamas e Irã.

Vale mencionar também a declaração de Moussa Abu Marzouk, membro sênior do Hamas. Ele não poderia ter sido mais explícito:

“O Talibã confrontou a ‘América’ e seus agentes, e recusou-se a assumir compromissos com eles (os norte-americanos). Eles (os membros do Talibã) não foram enganados por manchetes brilhantes sobre ‘democracia’ e ‘eleições'”, disse.

No final das contas, a decisão de Joe Biden está sendo cooptada ideologicamente pelo eixo de oposição aos EUA. Irã e Hamas usam o termo “ocupação” porque não iriam perder a oportunidade de vincular EUA e Israel e traçar paralelos entre a presença norte-americana no Afeganistão e a israelense na Cisjordânia.

Hamas e Irã querem aproveitar ao máximo este momento para estabelecer relações de causalidade, muito embora sejam situações distintas: se depois de 20 anos os EUA deixaram o Afeganistão, portanto seria possível conceber que a “derrota” israelense ocorreria com o tempo, quase como um fenômeno natural vinculado não a negociações e engajamento com os israelenses, claro, mas à manutenção da “resistência”. Mas há problemas neste raciocínio; os principais são as definições e as visões distintas a partir desta linha narrativa de ambos (Irã e Hamas).

A pergunta principal que se encaixa nesta questão é simples, mas de resposta distinta: o que significaria derrotar Israel (e faço uso aqui do termo “derrotar” porque assim está sendo interpretada a retirada norte-americana do Afeganistão)?

Para parte da comunidade internacional, a derrota israelense seria a criação de um estado palestino em Gaza e na Cisjordânia, tendo Jerusalém Oriental como capital, além da retirada das colônias israelenses da Cisjordânia (ou Judeia e Samária, como definem os judeus). A questão aqui é que esta não é – nem nunca foi – a visão de Hamas e Irã. Para ambos, a própria existência de Israel é o problema.

E, portanto, na visão de ambos (Irã e Hamas) derrotar Israel significa acabar com o estado judeu. Ninguém é capaz de responder ao certo qual seria o destino da população judaica nesta configuração, mas dado o nível de hostilidade no discurso, o histórico de atentados terroristas cometidos por Hamas e Irã (inclusive contra comunidades judaicas fora de Israel), a ideia de fraternidade entre judeus e muçulmanos no dia seguinte a esta imaginada derrota de Israel não passa de ilusão.

De qualquer maneira, de modo a retornar ao cenário afegão e às repercussões internacionais a partir da retirada dos EUA, este projeto de Irã e Hamas ganha um impulso não planejado. E, evidentemente, as novas potências não regionais em atuação – China e Rússia – cada vez mais se consolidam na posição de liderança deste novo Oriente Médio.

Henry Galsky, fundador, administrador e editor do site Carta e Crônica, é jornalista especializado em assuntos de política internacional e com ampla vivência e pesquisa do Oriente Médio. No ano de 2006, em Israel, cobriu para a rádio CBN o conflito que ficou conhecido como a Segunda Guerra do Líbano. No ano seguinte, já no Brasil, deu início às análises publicadas no CeC. Colaborou com o Stratfor, empresa norte-americana líder mundial no setor privado de projeções e análises geopolíticas. Durante dez anos, manteve o blog de Política Internacional do jornal O Tempo, de Minas Gerais. Desde 2007, já escreveu mais de 3 mil textos sobre Política Externa com ênfase em assuntos do Oriente Médio. Atualmente, vive em Israel.

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