Na noite de 29 de agosto, o ministro da Defesa de Israel, Benny Gantz, e o presidente palestino, Mahmoud Abbas, encontraram-se pessoalmente em Ramallah. Este é o tipo de encontro raro, em especial na última década. Para ser mais exato, foi a primeira reunião entre membros da alta hierarquia política das duas partes em dez anos. De acordo com um comunicado emitido pelo gabinete do ministro israelense, os dois debateram questões relacionadas a segurança, diplomacia, economia e assuntos civis.

Para além dos protocolos, é preciso também entender os muitos contextos e as mudanças em curso. A primeira delas diz respeito à nova coalizão de governo em Israel. Formado por membros de quase todo o espectro político do país com exceção dos partidos judaicos ortodoxos o novo governo nasceu depois de quatro processos eleitorais infrutíferos e desgastantes. O primeiro-ministro Naftali Bennet é um líder contestado pela oposição por, entre outras questões de cunho ideológico, ter obtido apenas sete cadeiras (do total de 120) mas cuja capacidade de articulação acabou por emplacar a substituição de Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro mais longevo da história do país.

Este é um retrato amplo que explica o cenário atual e dá dimensão às feridas político-sociais que permanecem abertas. O governo Bennett é sustentado por partidos de esquerda, centro e direita e também por uma legenda árabe. Em comum aos 61 membros da coalizão governamental (a maioria mínima do parlamento), a oposição ao ex-primeiro-ministro Netanyahu e a urgência deste grupo em derrotá-lo eleitoralmente. Este sucesso foi alcançado graças à união de forças dissonantes. Mas esta é uma associação absolutamente frágil.

Como escrevi em alguns textos publicados por aqui sobre o processo eleitoral e a formação do governo, há um entendimento claro sobre a grande ameaça à atual coalizão: rompantes ideológicos de qualquer natureza e faceta política. Não por acaso, há esforços contínuos da oposição (capitaneada justamente pelo ex-primeiro-ministro Netanyahu) em apresentar dilemas e discussões ideológicas.

Naftali Bennett, no entanto, não apenas é estratégico, mas deixa claro seu entendimento sobre pragmatismo e o comprometimento a esta ideia. Não somente porque sabe que esta é a única maneira de se manter no cargo – e manter a coalizão de pé -, mas também porque muitas de suas atitudes como primeiro-ministro estão ideologicamente distantes da maneira como pensam seus eleitores primordiais – os que votaram no Yemina, seu partido, esperando receber posicionamentos e decisões de um Bennett comprometido tão somente com a agenda da direita israelense. Isso não aconteceu, nem irá acontecer. Este é um Bennett diferente, alguém que vestiu o manto do pragmatismo e justifica seu norte político a partir deste entendimento.

O encontro entre Benny Gantz e Mahmoud Abbas é parte deste olhar pragmático de Bennett, alguém que hoje está primeiro-ministro e promete corrigir rotas nas relações entre Israel e seu principal aliado, os EUA. E, claro, o atual ocupante da Casa Branca não está alinhado com a agenda de Donald Trump ou de Benjamin Netanyahu. Para emplacar melhores relações com os EUA de Joe Biden, Bennett precisa fazer concessões em sua própria agenda ideológica histórica.

Não por acaso Bennett despachou seu ministro da Defesa para se encontrar pessoalmente com o presidente palestino poucas horas depois de retornar de sua primeira visita oficial a Washington – na nova configuração Democrata da presidência norte-americana. E também tendo claro que há cada vez mais membros do partido de Biden que aprofundaram as próprias divergências em relação a Israel durante os quatro anos de governo Trump. Durante este período, Israel, um tema até então reconhecido como de concordância histórica entre Democratas e Republicanos, passou a ser visto por muitos como aliado do partido Republicano. Bennett quer retornar ao estágio anterior. E isso se faz com gestos e medidas práticas.

No caso, Bennett acena mais em relação ao que não vai fazer, conforme declarou antes de seguir para Washington em entrevista ao New York Times:

“Este governo não vai nem anexar (a Cisjordânia), nem formar um estado Palestino, todo mundo entende isso. Sou o primeiro-ministro de todos os israelenses, e o que estou fazendo agora é encontrar um meio-termo; como podemos nos concentrar no que concordamos”, disse.

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