Já é possível identificar alguns sinais importantes quanto à estratégia internacional do governo de Naftali Bennett. Há novos caminhos em relação à política externa do país e suas características chamam a atenção porque representam um contraste claro em relação às escolhas do ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

É importante reforçar um aspecto sobre o qual sempre escrevo por aqui desde que essa coalizão liderada por Bennett foi forjada e acabou por se tornar o governo de Israel: a união de diversas – e em boa medida dissonantes – forças políticas impedem grandes gestos. O primeiro-ministro Bennett entende isso de forma absolutamente clara e sempre faz questão de reforçar essas “amarras” estruturais (inclusive porque precisa voltar a este ponto de forma a convencer, mesmo que por repetição, o seu eleitorado original). Reproduzo uma vez mais uma das declarações de Bennett que mencionei em meu último texto:

“Este governo não vai nem anexar (a Cisjordânia), nem formar um estado Palestino, todo mundo entende isso. Sou o primeiro-ministro de todos os israelenses, e o que estou fazendo agora é encontrar um meio-termo; como podemos nos concentrar no que concordamos”, disse.

Bennett agora é um pragmático assumido. E esta postura se deve não apenas ao modo como encara a função que exerce, mas também ao seu frágil desempenho eleitoral (seu partido obteve somente sete das 120 cadeiras do Knesset, o parlamento) e ao seu companheiro de coalizão, o ministro das Relações Exteriores, Yair Lapid.

Lapid será primeiro-ministro em substituição a Bennet, de acordo com o compromisso assinado por ambos durante o processo de formação deste governo. Lapid, do partido de centro Yesh Atid (“Há Futuro”), é um moderado cuja missão atual é a reabilitação internacional do país junto a atores que acabaram enfraquecidos ao longo de 12 anos de administração Netanyahu.

E neste ponto já é possível identificar a estratégia internacional que o atual governo israelense tem colocado em prática.

Na foto: o ministro das Relações Exteriores de Israel, Yair Lapid, em visita ao Bahrein

O aspecto fundamental está relacionado à restauração dos laços plenos com o maior aliado do país, os EUA. Evidentemente Netanyahu não pretendia romper com Washington, pelo contrário, mas, em especial durante os quatro anos de Donald Trump na presidência norte-americana, o ex-primeiro-ministro acabou por embarcar de peito aberto na aliança com o ex-presidente, provocando como consequência a alienação de parte do partido Democrata. O jogo de Trump, tal como o das lideranças desta nova onda de extrema direita (inclusive a brasileira), depende da polarização.

Em troca dos muitos benefícios concedidos a Israel, a administração Netanyahu entrou de cabeça na forma como Trump conduzia a política externa dos EUA. A verdade é que Netanyahu já se desentendia com os Democratas desde a presidência de Barack Obama, isso não era exatamente um segredo.

Resumidamente, em função de tudo isso, Israel deixou de ser, na prática, tema consensual entre os dois partidos norte-americanos. Este é um problema sério para o Estado judeu. E a ideia do atual governo israelense é reabilitar o país junto ao partido Democrata – e, em especial e muito importante, evitar qualquer forma de confronto direto com o governo de Joe Biden.

E neste ponto me refiro inclusive à política sobre o Irã, o ponto máximo de dissonância entre os governos de EUA e Israel. Este é um item de discordância que se mantém mesmo após a mudança do governo por aqui. A diferença fundamental é que parece neste momento haver uma espécie de compromisso silencioso por parte da coalizão liderada por Bennett para evitar críticas abertas aos EUA em relação a este tema. É provável que em sua visita a Washington Bennett tenha encontrado um caminho de entendimento sobre a forma como os dois países – EUA e Israel – devem tratar o assunto. E isso certamente envolve o aprofundamento das relações de bastidores.

Para além dos EUA, também já é possível perceber que Israel corre contra o tempo para remendar relações estremecidas ou mesmo congeladas. O tempo é exíguo por uma razão muito simples: depois de 12 anos de Benjamin Netanyahu no poder, o simples fato de haver uma nova liderança no país já abre portas. Mas escrevi acima que é improvável que este novo governo tome medidas mais concretas ou decisivas, em especial relacionadas ao processo de negociação com os palestinos. E, completando, este é um governo que já nasceu cheio de amarras (aliás, é fruto delas), então na prática não há mesmo espaço para medidas mais relevantes, se a expectativa for a resolução em definitivo do conflito.

Por exemplo, Lapid conversou com a ministra das Relações Exteriores da Suécia, Ann Linde. Há sete anos não havia uma conversa de primeiro escalão entre os dois países. A ex-ministra sueca, Margot Wallstrom, era uma das vozes mais críticas a Israel na Europa, tendo inclusive reconhecido o estado palestino em 2014. Wallstrom também tentou explicar os atentados terroristas ocorridos em Paris, durante o ano de 2015, a partir de uma visão muito simplória em que os relacionava aos conflitos entre israelenses e palestinos. Claro que este tipo de comentário provocou a ira das autoridades israelenses.

Mas o fato é que provavelmente a Suécia espera deste novo governo de Israel passos mais concretos em relação aos palestinos. E Bennett sucessivamente deixa claro que isso não deve acontecer – não apenas por causa da forma como o próprio Bennett encara a situação, mas porque esta é uma coalizão formada a partir de um compromisso pragmático entre partidos que pensam de forma muito distinta. Nada provocaria mais debate ideológico do que negociações com os palestinos em busca de um acordo definitivo (é possível que haja outro tipo de aproximação, que aliás já tem ocorrido, conforme abordei em meu último texto por aqui).

Há uma mudança em curso em Israel. E as relações com os países árabes também estão em pauta, inclusive com o maior deles, o Egito. Mas este é assunto para um próximo texto.

Henry Galsky, fundador, administrador e editor do site Carta e Crônica, é jornalista especializado em assuntos de política internacional e com ampla vivência e pesquisa do Oriente Médio. No ano de 2006, em Israel, cobriu para a rádio CBN o conflito que ficou conhecido como a Segunda Guerra do Líbano. No ano seguinte, já no Brasil, deu início às análises publicadas no CeC. Colaborou com o Stratfor, empresa norte-americana líder mundial no setor privado de projeções e análises geopolíticas. Durante dez anos, manteve o blog de Política Internacional do jornal O Tempo, de Minas Gerais. Desde 2007, já escreveu mais de 3 mil textos sobre Política Externa com ênfase em assuntos do Oriente Médio.

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