No texto anterior, abordei de forma mais ampla as novas diretrizes internacionais de Israel. Mas é preciso um texto integralmente dedicado à vizinhança árabe – até porque este é um dado concreto com o qual o Estado judeu precisa lidar diariamente: os vizinhos árabes e não-árabes formam o contexto regional onde os israelenses estão inseridos como minoria absoluta. Forjar relações, estabelecer alianças e lidar com ameaças existentes são pilares permanentes da política internacional de Jerusalém.

E mesmo Bennett, que conseguiu formar uma coalizão diversa baseada integralmente na oposição a seu antecessor, está surfando na onda do principal feito da administração do ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu: os chamados “Acordos de Abraão”, a normalização de relações diplomáticas entre Israel e Emirados Árabes, Bahrein, Marrocos e Sudão.

O sucessor de Bennett na chefia do governo israelense (considerando a possibilidade de a coalizão se sustentar) é Yair Lapid, jornalista e fundador do partido de centro Yesh Atid (“Há Futuro). Lapid é neste momento o ministro das Relações Exteriores do país e está integralmente dedicado a ampliar as alianças israelenses. E isso também se aplica aos vizinhos árabes. No último dia de setembro, Lapid esteve presencialmente em Manama, capital do Bahrein, para inagurar a embaixada do país. É inegavelmente um fato histórico (foto). Mais cedo, o ministro se reuniu com o rei Hamad bin Isa Al Khalifa no primeiro encontro público entre o monarca e um membro do governo israelense.

As relações entre Israel e as monarquias do Golfo se aprofundaram nos últimos anos em função do temor quanto ao processo de expansão regional do Irã. A república islâmica, que caminha para obter capacidade atômica, é considerada uma ameaça existencial por esses atores. Como já escrevi por aqui diversas vezes, os iranianos projetam hegemonia no Oriente Médio e marcam presença (direta ou por meio de milícias ou grupos terroristas que financiam) em Líbano, Síria, Iêmen, Iraque e na Faixa de Gaza. Evidentemente este é o ponto comum a unir o eixo que tem se formado – agora cada vez mais abertamente – de forma a conter o avanço do Irã.

Ao mesmo tempo, a construção de um novo Oriente Médio sob a liderança iraniana tampouco corresponde aos interesses de dois dos países árabes mais relevantes com os quais Israel já mantém relações: Egito e Jordânia. Para ambos, no entanto, a liderança do ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu representava um constrangimento a impedir o aprofundamento das relações com Israel.

No caso jordaniano havia de fato um problema pessoal entre Netanyahu e o rei Abdullah, a ponto de em 2019 uma série de incidentes entre os países ter levado a Jordânia a convocar de volta ao país seu embaixador em Israel. Na ocasião, o rei Abdullah chegou a dizer que as relações entre Israel e Jordânia estavam “no ponto mais baixo de todos os tempos”.

Em agosto deste ano, Yair Lapid se encontrou com o ministro das Relações Exteriores jordaniano, Ayman Safadi. Na semana anterior, acredita-se que o primeiro-ministro Naftali Bennett tenha se reunido secretamente com o rei Abdullah.

De forma pública, Bennett se encontrou com o presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi, em 13 de setembro. Foi uma visita com direito a bandeira dos dois países, ampla cobertura por parte da imprensa egípcia e o anúncio – anterior ao próprio encontro – que a companhia aérea estatal EgyptAir começaria a operar quatro voos diretos entre Tel Aviv e Cairo.

Todo este cenário descrito até aqui deixa claro algo que mencionei em meu texto anterior: até agora, o governo de Naftali Bennett tem sido premiado apenas pelo fato de não ser o governo de Benjamin Netanyahu.

No entanto, existe a percepção pelo ponto de vista do Egito especificamente de que esta aproximação corresponde a um benefício concedido ao atual primeiro-ministro israelense, até porque a última recepção oferecida a um governante israelense aconteceu no distante ano de 2011.

Em entrevista ao site Al-Monitor, o ex-ministro das Relações Exteriores assistente do egito, Rakha Hassan, declarou que o encontro representou um “grande serviço oferecido pelos egípcios”, uma vez que “fortaleceu o poder político de Bennett em Israel”.

Não é por acaso que talvez esta seja a versão a prevalecer entre estudiosos e membros de organizações políticas no Egito. Como também costumo escrever por aqui, a fragilidade da coalizão liderada por Bennett é um fato – além da fraqueza eleitoral do primeiro-ministro, que nas últimas eleições obteve apenas sete das 120 cadeiras em jogo no Knesset, o parlamento israelense. Portanto, há uma visão curiosa neste jogo atual: se por um lado há alívio e abertura por Bennett ser o primeiro-ministro de Israel, há também a percepção quanto à fraqueza do líder atual, possivelmente em comparação a seu antecessor, Netanyahu.

E esta conclusão pode ser uma ameaça ao próprio Bennett; ou seja, a abertura e a possibilidade de estabelecer e aprofundar laços com os países árabes certamente será acompanhada por reivindicações. E essas reivindicações muito provavelmente estão relacionadas aos palestinos. Os “presentes” concedidos pelos países árabes serão devidamente cobrados.

As relações com os palestinos e a forma como a coalizão de Bennett e o próprio primeiro-ministro imaginan que poderão lidar com a questão mais problemática a qualquer governo israelense são o tema do último texto desta série de análises sobre a atual política externa de Israel.

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