Calma e confronto: o momento atual do conflito entre israelenses e palestinos

Neste momento de relativa calma no conflito entre israelenses e palestinos, há eventos em curso que podem ser determinantes numa eventual nova rodada de enfrentamentos. Mais ainda, com poucos avanços nas negociações sobre o programa nuclear iraniano e a possibilidade de ações militares por parte de Israel para conter o projeto, as interações entre israelenses e palestinos passariam a integrar o cenário regional mais amplo. É possível afirmar que, na eventualidade de uma guerra aberta entre Israel e o Irã, os atores baseados nas fronteiras israelenses estarão envolvidos – para ser mais preciso, ao menos o Hamas, em Gaza, e o Hezbollah, no sul do Líbano, serão parte da frente de ataque iraniana contra o estado judeu.

Dito isso, a calma atual – cujo tempo de duração é imprevisível – é cercada de negociações, estratégias e o estabelecimento de novos fatos no terreno. O primeiro deles foi inaugurado por Israel em dezembro de 2021: a finalização de sua moderna barreira de segurança ao redor da Faixa de Gaza. Para além dos 65 quilômetros de extensão, há aqui um elemento que tem a capacidade de neutralizar uma das ações colocadas em prática pelo Hamas e que surpreenderam Israel no passado recente – a barreira também foi construída de forma subterrânea, impedindo que os membros do grupo terrorista consigam penetrar em território israelense a partir de sua vasta rede de túneis em Gaza. Este é um novo ativo de Israel que inviabiliza (pelo menos até que se prove o contrário) um ponto forte do grupo.

Sob o aspecto militar, o Hamas hoje conta com foguetes de fabricação iraniana capazes de colocar praticamente todo o território israelense no alvo, como se viu nesta última rodada de enfrentamentos ocorrida em maio passado. Mas perde um aspecto importante de sua força ao se deparar com uma barreira capaz de impedir a infiltração de seus membros em Israel – para além dos objetivos específicos de sequestro de soldados, este tipo de ação (a possibilidade de invasão) tem o efeito psicológico de ser uma ameaça constante à população civil israelense que vive em cidades e comunidade nas proximidades de Gaza.

Por outro lado, o Hamas tem conseguido se consolidar não apenas como inspiração no outro território palestino (a Cisjordânia), mas também existe a desconfiança por parte das forças de segurança de Israel de que o grupo estaria envolvido em ataques recentes realizados no território. Apesar de terem sido conduzidos pelas chamadas células locais – palestinos que moram na região -, o Hamas pode estar diretamente envolvido na preparação ou mesmo na decisão dos ataques. E aqui reside um problema substancial para Israel.

Como costumo escrever com frequência, a expulsão da Autoridade Palestina da Faixa de Gaza pelo Hamas em 2007 mudou o conflito entre israelenses e palestinos, uma vez que o grupo se transformou no governo local e se desenvolveu militarmente. Gaza hoje é um ativo do Hamas e não há qualquer perspectiva de mudança quanto a isso no futuro próximo. Em Gaza, o grupo ganhou relevância regional, desenvolveu parcerias com financiadores externos (como Irã e Qatar, por exemplo), transformou-se em um exército que já enfrentou Israel diretamente em quatro ocasiões ao longo do século 21 e viu aumentar sua popularidade internacional. Durante o confronto de maio passado, apesar das perdas materiais, o Hamas conseguiu obter grande apoio popular em manifestações realizadas em praticamente todas as capitais europeias.

A possibilidade de imaginar o estabelecimento do Hamas na Cisjordânia (o maior território palestino onde também vivem cerca de 400 mil colonos judeus) é uma perspectiva terrível para as autoridades israelenses.

Diante disso, não restam muitas alternativas a não ser fazer o óbvio: fortalecer a Autoridade Palestina e seu presidente, Mahmoud Abbas. Não se sabe exatamente se foi por isso, mas o fato é que o ministro da Defesa de Israel, Benny Gantz, recebeu o líder palestino em sua casa, localizada na cidade de Rosh Ha’ayin, no centro do país. Foi a primeira vez que Abbas esteve em Israel a trabalho desde 2010 – Abbas também esteve presente no enterro do ex-primeiro-ministro e ex-presidente Shimon Peres, em 2016, mas não foi uma visita de trabalho, evidentemente.

Abbas e Gantz se reuniram no último dia 28 de dezembro durante cerca de duas horas e meia. Este foi o segundo encontro entre os dois – o primeiro ocorreu em agosto. A ideia de Israel, de acordo com a declaração oficial de Gantz após a reunião, é “continuar avançando em medidas de fortalecimento da confiança nas áreas econômicas e civis”. Entre as medidas anunciadas, a distribuição de centenas de autorizações de entrada em Israel para empresários palestinos e veículos palestinos, autorizações VIP adicionais (acelerando a entrada em Israel) para dezenas de funcionários da Autoridade Palestina e o repasse de 100 milhões de shekels israelenses (cerca de 30 milhões de dólares) de pagamentos de impostos à Autoridade Palestina.

Evidentemente, as medidas apresentadas e os encontros entre autoridades de alto-escalão do governo israelense e o presidente palestino não estão relacionadas apenas à contenção do Hamas, mas também representam uma mudança da política do governo de Israel. Vale sempre lembrar que esta coalizão é diversa e tem o enorme desafio de unir partidos de linhas ideológicas distintas, inclusive um partido árabe. De qualquer maneira, o caminho envolvendo o estabelecimento de uma linha de diálogo com os palestinos tem se mostrado constante, apesar da pressão exercida pela oposição interna em Israel que tem como objetivo derrubar o governo e provocar novas eleições.

Ao mesmo tempo, este governo israelense também se mostra aberto a aceitar a mediação egípcia em negociações cujo objetivo é a obtenção de um acordo de longo prazo com o Hamas que incluiria também projetos de reconstrução de Gaza e a troca de prisioneiros entre Hamas e Israel. Dois civis israelenses estão em poder do grupo palestino, além dos corpos de dois soldados. Para libertar os civis e devolver os corpos dos soldados, é provável que o Hamas exija a libertação de palestinos presos em Israel – inclusive daqueles que participaram do planejamento ou execução de atentados terroristas em território israelense.

Neste momento, no entanto, as poucas informações disponíveis dão conta de que as negociações teriam esfriado, o que poderia também ser mais um elemento a explicar as intenções de Israel de fortalecer o governo da Autoridade Palestina. Os efeitos colaterais de todo este cenário e de seus impasses podem resultar em mais uma escalada de confrontos entre Hamas e Israel. Por isso, a calma que existe neste momento pode ser apenas um intervalo entre a última rodada de violência – ocorrida em maio do ano passado – e a próxima. Lembrando, claro, que tudo pode mudar, caso o Egito consiga obter algum progresso nas negociações do acordo de longo prazo sobre o qual tratei acima.

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