Putin considera ter chegado a hora de obter reconhecimento internacional

A atual crise na Ucrânia, que pode marcar o início de uma nova ofensiva russa ao país, demonstra de forma muito clara como o presidente para sempre Vladimir Putin pensa as relações internacionais e o papel de seu país na geopolítica. Como os pretensos imperadores desta geração – Reccep Tayyip Erdogan, na Turquia, é outro bom exemplo -, Putin é o símbolo de governantes e países que estão em busca da alteração do conceito de estado nacional.

Turquia e Rússia são exemplos de países que, sob a ótica de seus presidentes eternos, enxergam a si mesmos como “estados nacionais transitórios”, numa definição que criei para estabelecer uma espécie de ponto e vírgula naquilo que se toma como ponto final. Tratando apenas do caso russo neste momento, Putin se vê como liderança quase messiânica cuja missão é a de conduzir a Rússia a seu destino manifesto: a recriação de um suposto Império Soviético (Erdogan se vê na mesma posição, mas reinventando o Império Otomano).

E aí fica mais claro compreender todos os passos dados por Putin. Por exemplo, toda a campanha em torno de Donald Trump e seu envolvimento direto ou indireto na vitória do já ex-presidente norte-americano. O líder russo apostava na reversão de décadas de construção internacional dos EUA (de presidentes Democratas ou Republicanos); no engajamento com uma liderança norte-americana que transformou estratégia internacional em discurso populista. Para quem não se recorda, em relação à política externa, Trump pôs em suspenso não apenas a relação dos EUA com a OTAN, mas também todo o envolvimento internacional norte-americano nos principais fóruns globais e nas principais arenas.

No caso do Oriente Médio, para além de certos movimentos em Israel e na grande contribuição ao costurar os chamados Acordos de Abraão, Trump retrocedeu em frentes importantes, como na Guerra Civil Síria, por exemplo – território onde são os russos justamente que tomaram a dianteira, participando ativamente nos combates de forma a manter não apenas os seus ativos no país, mas também a histórica aliança com a família Assad – garantindo a permanência do presidente ditador Bashar al-Assad, mesmo ao custo humanitário de mais de 350 mil civis mortos e três ataques com armas químicas contra a própria população realizados por Assad.

Hoje, quando se imagina qualquer passo a ser dado regionalmente, os atores pedem autorização ou realizam coordenação com o presidente Putin, não com a Casa Branca. Putin está no centro do tabuleiro. É ele que unicamente dialoga com todos os atores, sejam eles israelenses, iranianos, libaneses, palestinos ou sírios. O Irã envia armamentos para a Síria buscando aumentar as ameaças contra Israel. Sob olhar russo. Israel realiza ataques noturnos contra depósitos onde essas armas estão estocadas na Síria. Buscando coordenação com os russos. Os sistemas antimísseis usados pelas forças sírias de forma a alvejar os aviões de combate israelenses também são russos. A Rússia é a potência internacional titular no Oriente Médio.

Neste momento, quando cerca de 130 mil soldados russos estão estacionados na fronteira com a Ucrânia, a Rússia busca por em prática a frente europeia de sua macroestratégia internacional. O que Vladimir Putin pretende obter é absolutamente simples de ser compreendido; mencionei no início deste texto os sonhos imperiais do presidente russo. Putin quer que seus sonhos se realizem. Mas quer participação ocidental. Ou seja, quer reconhecimento. Este é o ponto de conexão, a chave para se entender a crise atual.

Para evitar a guerra, depois de anos de paciência e construção, Putin quer dar a cartada final: quer o reconhecimento ocidental de seu império. Para tal, a OTAN, a aliança militar das potências ocidentais, deverá manter distância da “esfera de influência” de Moscou – uma linha em diagonal conectando basicamente o Mar Cáspio ao Báltico. A Ucrânia é a bola da vez permanente por razões históricas óbvias, mas também porque a Rússia tomou a Crimeia em 2014 e nada de mais sério foi feito. Pelo contrário; a ponto de a Rússia ter sediado uma Copa do Mundo quatro anos depois sem maiores problemas.

Carl von Clausewitz, teórico militar do século 19, definia a guerra como “a continuação da política por outros meios”. A ameaça russa deste momento se insere nesta mesma lógica. Todo mundo já sabe o que a Rússia quer. Se houver uma guerra de fato, ela ocorrerá para que Putin tenha finalmente o reconhecimento internacional de seu império.

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.